O populismo como tradição radical americana: entrevista com Thomas Frank

Thomas Frank, historiador e colunista do The Guardian

Por Fábio Lopes da Silva

Há uma década e meia, Thomas Frank vem se destacando como um dos mais argutos e corrosivos intelectuais esquerdistas americanos. Dono de uma pena ferina e um estilo irresistível, ele dedicou a maior parte de sua vida adulta a refletir sobre a ascensão de movimentos conservadores nos Estados Unidos.

Frank é historiador, tendo obtido seu doutorado na prestigiosa Universidade de Chicago. Já foi colunista do The Wall Street Journal e atualmente escreve para o jornal inglês The Guardian. Vários de seus livros se tornaram best sellers em seu país. É o caso de What’s the matter with Kansas? (2004) e Listen, liberal! (2016). Em 2020, ele lançou seu título mais recente, The people, no! A brief history of anti-populism.

Frank foi um dos convidados de um simpósio organizado por professores do CCE e do CFH em homenagem aos 60 anos da Cadeia da Legalidade. Sua palestra — transmitida pelo Youtube no dia 6 de setembro — está disponível no link https://youtu.be/optdRgyGeLM

Nesta entrevista concedida para a Subtrópicos, ele fala de sua trajetória intelectual, da política americana contemporânea e de seu último livro.

Subtrópicos: Você foi um dos primeiros analistas a perceber a conversão da classe trabalhadora americana branca — que por muito tempo votou fielmente no Partido Democrata — a um credo conservador. Poderia nos contar a história de como se deu conta do que estava acontecendo?

Thomas Frank: Na verdade, não fui o primeiro a registrar o fenômeno, longe disso. Esse movimento dos antigos eleitores do Partido Democrata em direção aos conservadores era difícil de não ser percebido por quem, como eu, cresceu nos Estados Unidos nos anos 1970. Houve um enorme volume de escritos sobre o assunto naquela época. Muitos desses comentários, claro, eram tolos, mas o fato básico permaneceu: um imenso número de indivíduos brancos da classe trabalhadora contribuiu com seus votos para a grande virada à direita dos anos 1970, 1980 e 1990. O que eu trouxe de novo para o debate foi que a grande inflexão à direita havia destruído precisamente o modo de vida desse grupo que estava aderindo aos conservadores. A ascensão conservadora havia esmagado as classes médias. Para mim, aí estava o grande mistério político de nosso tempo. O evento que me fez escrever sobre isso foi quando o Kansas, meu estado natal, se envolveu em uma candente disputa pública sobre a teoria da evolução. Esse debate chegou às manchetes nacionais e configurou um cenário perfeito de guerra cultural, em que pais preocupados enfrentavam estudiosos e cientistas que deles faziam pouco caso. O que percebi naquele episódio foi que muitas dessas guerras culturais são, na verdade, lutas de classes simbólicas. Percebi, além disso, que ganhar esses debates não era o que importava. Encenar e reencenar esses fúteis e simbólicos conflitos de classe foi a maneira que se encontrou de construir o movimento de direita, foi como a direita passou a ganhar eleições.

“Se eu tivesse que nomear um político ambicioso capaz de realizar o sonho dos republicanos de se tornar o ‘partido dos trabalhadores’, apostaria em Josh Hawley. “

Subtrópicos: No Partido Republicano, três nomes surgem como favoritos para competir na corrida eleitoral em 2024: Donald Trump, Ted Cruz e Josh Hawley. Você vê diferenças significativas entre eles?

Thomas Frank: Esses três indivíduos são semelhantes em aspectos importantes. Como outros republicanos bem-sucedidos antes deles, fingem estar do lado da classe trabalhadora americana em seu eterno confronto com as elites arrogantes. Caso eleitos, todos os três, como seus predecessores, farão favores incríveis para os tradicionais queridinhos dos republicanos: cortarão impostos e eliminarão regulamentações.

As diferenças entre eles têm a ver com aparência e competência. Trump é o orador público mais talentoso do grupo, um homem chocante e vulgar, nascido para as câmeras de tevê. Mas sua incompetência como executivo-chefe era notável; na verdade, sua despreocupação em fazer qualquer coisa como presidente (exceto cortes de impostos, é claro) era deslumbrante, quase inacreditável. Mesmo quando o país clamava por liderança durante a pandemia de covid, ele optou por não fazer quase nada. Começou seu mandato sem a mínima ideia de como Washington funcionava e nunca se preocupou em descobrir. Era como se ele realmente pensasse que as guerras culturais fossem um fim em si mesmas.

A pessoa pública de Ted Cruz é tão obviamente inventada que é difícil acreditar que alguém se apaixone por ela. Ele é um hipócrita americano clássico, até no lamento crônico que imprime a seus discursos. Ao mesmo tempo, é sem dúvida um homem competente. Como Reagan e Bush, Cruz sabe para que serve a presidência, e ele faria o que se espera dele.

Hawley é o mais novo espécime de uma longa linhagem de revolucionários republicanos cuspidores de fogo que se mostram dispostos a ir além do ponto a que chegaram os caras que o precederam. Se eu tivesse que nomear um político ambicioso capaz de realizar o sonho dos republicanos de se tornar o “partido dos trabalhadores”, apostaria em Hawley. Durante anos, argumentei que o êxito do conservadorismo americano está em fingir ser um movimento de protesto operário à moda antiga, e Hawley é provavelmente o mais barulhento e mais furioso falso populista do país. Vocifera contra a Big Tech, “os falsos capitalistas”, “o desonesto baronato moderno”, os monopólios, a censura, etc. Nisso ele vai muito além de Trump, que nunca se preocupou em desenvolver uma teoria consistente sobre coisa alguma. Em última análise, Hawley tem condições de infligir uma derrota duradoura aos tecnocratas impassíveis do Partido Democrata, que há muito abandonaram os interesses da classe trabalhadora.

“A abordagem populista continua extremamente popular na América até hoje, embora nenhum dos partidos siga sendo populista (ambos imitam certos elementos da tradição populista, é claro).”

Subtrópicos: Seu último livro é uma defesa do populismo americano, que você chama de “nossa tradição radical”. O que caracteriza essa tradição e por que ela é tão importante?

Thomas Frank: Eu digo que é “nossa” tradição radical porque, embora o marxismo e outros “sabores” de socialismo nunca tenham realmente penetrado nos Estados Unidos, o populismo e os movimentos semelhantes que vieram depois dele desfrutaram de grande sucesso popular e político. O New Deal de Franklin Roosevelt, que deve muito à tradição populista, foi enormemente popular e continua sendo a base do progressismo americano até hoje.

Eu extraio minha definição de populismo do movimento dos trabalhadores agrícolas da década de 1890, que inclusive inventou a palavra: “populismo” é um movimento multirracial e de massa em favor da democracia econômica. Enfatizo a expressão “movimento de massa” porque o progressismo americano, em geral, não está mais interessado nos movimentos da classe trabalhadora, preferindo intervenções de cima para baixo, perpetradas por profissionais credenciados. Falo também em “democracia econômica” porque o populismo prioriza as questões econômicas, enquanto a esquerda e a direita hoje amam envolver-se em guerras culturais. A razão pela qual essas coisas são importantes está em que a abordagem populista continua extremamente popular na América até hoje, embora nenhum dos partidos siga sendo populista (ambos imitam certos elementos da tradição populista, é claro). O populismo é também a única saída para a encalacrada neoliberal. Essa é a lição a tirar ao fim de décadas de alternância de poder entre um Partido Republicano dominado pelos negócios e um Partido Democrata dominado por especialistas. Nenhum dos dois (por diferentes razões) está realmente interessado no bem-estar da classe trabalhadora. A resposta deve vir de baixo.

Subtrópicos: Há muito tempo, você chama a atenção para o fato de que o mainstream do Partido Democrata perdeu suas conexões com o povo e traiu suas raízes rooseveltianas. De alguma forma, os primeiros meses de Biden no cargo mudaram essa percepção?

“Uma esquerda que se concentra na retidão pessoal e em repreender os ignorantes pode ser uma esquerda que obtém boas notas em universidades de elite, mas não é uma esquerda capaz de construir um movimento de massa.”

Thomas Frank: É muito cedo para dizer. Fiquei surpreso e muito satisfeito com certas coisas que Biden fez: seu compromisso renovado com o antitruste, seu completo desdém pelos apelos à austeridade e sua disposição de encerrar a guerra do Afeganistão. Por outro lado, ele não fez nada em todas áreas em que poderia ter agido com ousadia: aumentar o salário mínimo, construir um sistema de saúde adequado, tomar medidas relacionadas ao problema da dívida estudantil. Veremos.

Subtrópicos: Algumas forças renovadoras estão surgindo no cenário político americano. Figuras como Bernie Sanders e Alexandria Ocasio-Cortez são as faces públicas dessa renovação. Mas os aspectos mais relevantes desse processo são as organizações de base, o ressurgimento dos sindicatos, a eclosão das greves, etc. Qual é o futuro dessas forças renovadoras e em que medida elas representam um renascimento da tradição populista?

Thomas Frank: Um ponto crítico sobre a tradição populista é que ela requer não apenas líderes, mas movimentos. Por um tempo, pensei que Black Lives Matter poderia se transformar em um movimento, mas até agora mostrou pouco interesse em questões econômicas. O trabalho organizado revelou pouca inclinação para se tornar um movimento de massa vital e dinâmico novamente: isso seria arriscado para eles sem que certas mudanças legislativas ocorressem primeiro.

Acho que a esquerda na América se voltou enfaticamente contra a tradição populista. Agora mesmo, vem sendo publicado todo um gênero de artigos progressistas que incita os esquerdistas a abandonar a classe trabalhadora branca. De resto, a maior conquista da esquerda na última década é a ascensão da “cultura do cancelamento”, em cujos termos as pessoas devem ser impiedosamente repreendidas no Twitter por alguma infração — apropriação cultural, mau uso da linguagem ou coisa parecida. Uma esquerda que se concentra na retidão pessoal e em repreender os ignorantes pode ser uma esquerda que obtém boas notas em universidades de elite, mas não é uma esquerda capaz de construir um movimento de massa.

[Tradução de Fábio Lopes da Silva]

Fábio Lopes da Silva é o atual diretor do Centro de Comunicação e Expressão da UFSC. Acaba de publicar Sadopopulismo: De Putin a Bolsonaro (Insular, 2020). E-mail: phabio.lopez6619@gmail.com

Descolagens: Cláudio Brandão

O fotógrafo Cláudio Brandão, com o colega Sérgio Vignes ao fundo. Foto: Ayrton Cruz

Por Monique Vandresen

Cláudio Brandão nasceu em Curitiba em 1956. Mudou-se para a capital catarinense aos dois anos de idade.

Começou a fotografar em 1977. Na década de 1980, virou fotógrafo publicitário, realizando trabalhos para grandes agências e clientes corporativos.

Engenheiro formado pela Universidade do Vale do Rio dos Sinos, é doutor em Design e Sociedade pela PUC-Rio e professor do Departamento de Design da Universidade do Estado de Santa Catarina, onde coordena o Laboratório de Representação Fotográfica. 

A obra artística de Cláudio Brandão procura evidenciar o espaço em constante transformação nas sociedades pós-modernas, combinando fenômenos efêmeros com estruturas geométricas. A força de suas imagens já rendeu exposições em todo o país, na Alemanha e na Itália.

O material publicado pela Subtrópicos faz parte de um projeto desenvolvido pelo artista há mais de quinze anos, o Descolagens, que aborda o caos visual gerado pela publicidade.

“Não é muito popular, mas gosto bastante, espero que vocês também. Estou sempre olhando para as paredes, e elas dizem muito das cidades, que é meu tema maior”, observa Brandão sobre a própria obra.

O julgamento de uma traição

Projeção em prédio de Brasília na semana da mobilização indígena contra o Marco Temporal. Crédito: @projetemos

Por Dorva Rezende

Santa Catarina, recentemente, andou dando vexame nos trending topics. Na última semana de agosto, por exemplo, um prefeito não se sentiu melindrado ao gravar um vídeo homofóbico para justificar a demissão de um professor por exibir em sala de aula um clipe de uma canção e estimular os alunos a pensarem a respeito. Um clube de futebol divulgou uma nota em que acabou culpando o jogador do time adversário por ter sido vítima de racismo. E como pano de fundo, ainda protagonizamos o “não julgamento” do marco temporal para a demarcação de terras indígenas no STF, em uma ação de reintegração de posse na qual o Estado e o Instituto do Meio Ambiente (IMA) se associaram a uma indústria madeireira e a 457 pequenos agricultores instalados na TI Ibirama-Laklãnõ para dizer que os indígenas só podem reivindicar terras nas quais estavam antes da promulgação da Constituição de 1988.

Semana passada, seis mil indígenas de 170 etnias estiveram reunidos em Brasília para acompanhar o julgamento que foi mais uma vez adiado pelo STF e que é, em síntese, o julgamento de uma traição cometida pelo governo de Santa Catarina. A imagem em vídeo, feita por um drone, das tribos unidas dançando ao redor de uma grande inscrição iluminada por 380 lâmpadas de led com os dizeres “Brasil Terra Indígena” viralizou nas redes sociais, mas não teve espaço nas capas dos principais jornais do país, e a mídia, como virou prática usual, mal registrou a manifestação.

Um dos significados de Laklãnõ é “povo que caminha sob o sol” (não por acaso, Ibirama é “terra da fartura”). Desde 1914, essa população indígena, que antes da colonização europeia dominava o sul do Brasil, do litoral ao planalto desde Curitiba até Porto Alegre, luta para preservar os 37 mil hectares que foram destinados aos sobreviventes do brutal processo de extermínio a que foram submetidos desde a chegada dos imigrantes. Bugres, botocudos, xokleng, muitos nomes deram a essa população cujo destino virou parâmetro para a sobrevivência de todos os povos indígenas do país.

Durante décadas, os Laklãnõ foram caçados nas matas do Vale e do Alto Vale do Itajaí, assim como os Kaingang e seus parentes Xokleng do Oeste do estado e os remanescentes Guarani do litoral. Bugreiros eram como se chamavam os assassinos contratados para dizimar tribos inteiras e expulsá-las de suas terras. O mais famoso facínora foi Martinho Marcelino de Jesus (1876-1936), o Martinho Bugreiro, que se gabava de ter matado mais de mil indígenas. A prática só foi questionada e combatida a partir de 1910, com a criação do SPI (Serviço de Proteção ao Índio), fundado pelo marechal Cândido Rondon.

Chamado “pacificador”, Eduardo de Lima e Silva Hoerhann, sobrinho-bisneto do Duque de Caxias, então com 18 anos, estabeleceu contato no dia 22 de setembro de 1914 com os líderes indígenas Kovi Pathé e Vomblé Kuzu, previamente decididos a aceitar a paz com os brancos como única solução para o fim da guerra contra os bugreiros. Doze anos depois, em 3 de abril de 1926, o então governador Adolfo Konder assinou a demarcação da Reserva Indígena de Ibirama, a mais antiga do Brasil, em um pedaço da antiga Colônia Hamônia, às margens do Rio Hercílio (antigo Braço Norte do Rio Itajaí), entre os municípios de José Boiteux, Itaiópolis, Victor Meireles e Doutor Pedrinho.

Os 40 mil hectares prometidos, logo de início, viraram 37 mil. Mas só no papel, porque ao longo das décadas seguintes, confinados na reserva junto com outras famílias Kaingang e Guarani e obrigados a trabalhar em condições análogas à escravidão por Eduardo Hoerhann, os índios foram perdendo os trechos mais férteis de suas terras, negociados com colonos sob a vista grossa do SPI e com o estímulo do governo estadual. Cansado da exploração e da violência com que eram tratados, em 1954, o cacique Brasílio Priprá, sem avisar o chefe do posto, foi ao Rio de Janeiro na sede do Serviço de Proteção ao Índio denunciar o esbulho das terras. Ao retornar, foi assassinado a poucos metros da casa do temido chefe do posto, Hoerhann, que chegou a ser afastado do comando da reserva e foi, posteriormente, inocentado do crime. Há um museu em homenagem ao “pacificador” em Ibirama.

Em 1956, o governo estadual fez nova demarcação da Terra Indígena em pouco mais de 14 mil hectares, porém, o título de propriedade só foi obtido em 1965. Deste total, as aldeias ocupavam apenas 15% do território, o restante era mata preservada. No entanto, em outubro de 1975, para conter as cheias no Vale do Itajaí, um decreto federal da ditadura militar declarou como de utilidade pública parte da reserva para a construção da Barragem Norte do Rio Hercílio. Tudo feito sem consulta prévia aos habitantes locais. A obra foi concluída em 1992, inundando com um volume de 357 milhões de litros cúbicos, (in)justamente, as terras mais cultiváveis e obrigando os índios a se mudarem para as partes mais altas, menos próprias ao cultivo, no entorno da barragem. Muitos morreram afogados nas cheias repentinas, sobretudo crianças, uma delas o filho do cacique Willi Ndili, de apenas 9 anos.

No primeiro ano do governo Lula, em 2003, uma portaria do Ministério da Justiça devolveu aos índios os 37 mil hectares originalmente demarcados. Houve uma tentativa, por parte de dois deputados catarinenses, em 2008, de sustar os efeitos da portaria, mas o projeto de lei foi barrado nas comissões da Câmara. Em 2014, cansados pela falta de um Estudo de Impacto Ambiental da Barragem Norte, o que por consequência obrigaria o Estado a assumir suas obrigações e compensá-los, os índios ocuparam as instalações da represa (assim como já haviam feito na “greve” de 1991, ainda no canteiro de obras). Estão lá até hoje, resistindo.

O povo que caminha sob o sol, o “povo ligeiro”, apesar de tudo, cresceu em número. Em 1951, os Laklãnõ restantes eram 290. Hoje são perto de 3 mil, muitos deles estudando nos cursos oferecidos pela Licenciatura Intercultural Indigena do Sul da Mata Atlântica, instituída há 10 anos e que, desde o último dia 25 de agosto, com a aprovação do seu projeto pedagógico, tornou-se curso permanente da UFSC. Projetos similares também são realizados na Furb e no Instituto Federal de Blumenau.

Formado na UFSC e professor da Escola Indígena Laklãnõ, Marcondes Namblá foi brutalmente assassinado a pauladas no município de Penha, na madrugada do primeiro dia de 2018. O criminoso foi sentenciado a 21 anos de prisão, mas se desconhece o motivo do ataque e se há mais alguém envolvido. A comunidade indígena suspeita do envolvimento de pessoas ligadas às rinhas de galo que eram realizadas dentro da Terra Indigena, e que foram denunciadas por Marcondes.

Temendo ataques semelhantes aos seus familiares que estudam e trabalham em Blumenau, seis famílias deixaram a aldeia de José Boiteux há três anos e ocuparam o prédio de um posto de saúde desativado, próximo ao centro da cidade. Atualmente, 12 famílias moram lá, totalizando 47 pessoas, 12 delas crianças. Recentemente, a Defensoria Pública de Santa Catarina conseguiu no Tribunal de Justiça que fosse fornecida energia elétrica e feita a instalação de água encanada no local. No próximo dia 18 de setembro, será feita a consagração daquele pedaço de chão, que passará a se chamar Aldeia Vomblé. O povo Laklãnõ resiste.

Dorva Rezende é jornalista, mestre em Letras pela UFSC.

A utopia que está logo ali: Lula lá

A coxa de Lula. Detalhe de foto de Ricardo Stuckert.

Por Heron Moura

Se não houver golpe, Lula será eleito. Como não haverá, então Lula já está eleito. A utopia está na esquina. Como no poema de Drummond,

Estou preso à vida e olho meus companheiros

Estão taciturnos mas nutrem grandes esperanças.

Não nos afastemos muito, vamos de mãos dadas !

Eu imagino um mundo no qual todos andarão de mãos dadas, da manhã ao pôr do sol, com as retinas e os braços fatigados, mas resistentes!

Investidores confraternizarão com alunos de Humanas! Professores universitários seguirão bradando contra o capitalismo, ao mesmo tempo em que investem amorosamente na Bolsa de Valores. O índice Bovespa vai explodir de afeto. Não nos dispersemos, vamos de mãos dadas! A meritocracia será varrida da face da terra e a compaixão encherá os corações. Não haverá mais necessidade de ação afirmativa, pois todos herdarão o sal da terra e as bolsas do CNPq!

As milícias serão extintas, e a paz reinará nas favelas. Startups vão pulular nas comunidades, e a franja estreita entre empreendedores e negros se desfará! Os investidores continuarão a não pagar imposto sobre os dividendos, que são como os frutos da terra, colhidos puros e não aos pedaços! Os militares voltarão aos quarteis e a violência será contida e combatida com os termos adequados. Empatia e gratidão serão as primeiras palavras ditas por todos os brasileiros no café da manhã, sussurrados juntos com o pão na manteiga.

Haverá workshops e rodas de conversa sobre o amor em todas as esquinas. Não haverá mais flanelinhas no Brasil. Como diz o poeta:

Não serei o poeta de um mundo caduco

Também não cantarei o mundo futuro.

Não precisaremos mais do mundo futuro. Viveremos no tempo da promessa e da promissão, no qual estudantes de MBA vão dedicar parte de seu tempo a cursos de extensão nas escolas públicas. A classe média vai abdicar de seus planos de saúde e passará a frequentar assiduamente o SUS, e não apenas durante as campanhas de vacinação. Não haverá mais deduções no Imposto de Renda para despesas de saúde e educação, pois esses serviços serão inteiramente públicos. Só as milícias vão frequentar escolas de elite.

A esquerda amorosa vai açambarcar o poder, mas isso não significa excluir a direita e os liberais. Há lugar para todos no Reino da Utopia. Reformas sociais serão feitas sem nenhum conflito. Como no poema de Eliot, o mundo será revolucionado não com uma explosão, mas com um suspiro. E Meirelles tornar-se-á o Ministro da Fazenda.

Os bolsonaristas serão esquecidos e relegados a um canto, como um tio fanfarrão com o qual ninguém mais conversa. Só restarão todos os outros membros da família, puros, amorosos e conectados como os quadros de uma Roda do Samsara. Nesse tarô da utopia, todas as cartas são boas.

Os problemas do país serão resolvidos com muita empatia. Todos desejarão pagar impostos, proporcionais à sua renda e às suas posses. Os brasileiros de classe média dispensarão as faxineiras e se recusarão a serem atendidos por frentistas. Tomarão corajosamente nas mãos a mangueira de gasolina e abastecerão sozinhos os seus carros.

Não haverá mais camarotes, e as pulseiras vip serão abolidas. O consumo de luxo será taxado (exceto nos casos em que seja considerado essencial).

O Brasil voltará brilhantemente às sessões da ONU, e todos os afegãos desejarão migrar para nosso país. Receberemos todos eles, de mãos dadas.

Todos os professores de universidade, além dos salários, receberão também no mínimo três bolsas: uma para pesquisa, uma para extensão e uma para auxiliar alunos de escolas públicas, fechando-se nesse triângulo perfeito o ciclo virtuoso da universidade pública.

Os limites do público e do privado serão tênues: todos serão fundidos na humanidade presente. O único medidor de segundos será o tempo da confraternização e do júbilo:

O tempo é a minha matéria, o tempo presente, os homens presentes

Nenhum brasileiro terá mais desejo de ir para Paris ou Miami, pois todos se comportarão aqui como se comportam lá. As faixas de pedestres serão respeitadas, e ninguém desejará a vaga de estacionamento do próximo. Os ciclistas serão respeitados pelos motoristas, e os pedestres serão respeitados pelos ciclistas. Andar de bicicleta voltará a ser um ato de simplicidade, e não de ostentação. Não saberemos mais distinguir entre os operários que usam bicicletas para ir para a obra e aqueles que usam bike para poder usar o smartwatch.

São tantas as delícias desse Jardim dos Prazeres, que tão só ao enumerá-las já sentimos uma doçura indescritível. Mas não posso me abster de dizer que o mundo não será mais dividido entre os que fazem delivery e aqueles que a recebem. O universo fará a entrega e os seres humanos a receberão no colo, como uma dádiva. Como a Direita estará abrigada no seio do poder unanimista, não haverá razão para a discórdia entre os homens (e as mulheres). Um único ponto não está claro. O Brasil tem uma das menores taxações de imposto sobre herança do mundo. O imposto sobre herança é maior do que 50% no Japão e na Coréia do Sul, próximo de 50% na França, e cerca de 30% nos Estados Unidos. No Brasil, vai de 3% a no máximo 8%. Como será na utopia? Os meus anjos da guarda me assopram no ouvido não o “vai ser gauche na vida” do Drummond, mas um “esquece esses números vãos”. Uma utopia não se constrói com números frios. O futuro é dos intuitivos e dos transdisciplinares. No Brasil, o cartesianismo tem que ser mágico e melodioso.

Esqueçam as alíquotas e sonhem com a bem-aventurança, os restaurantes cheios e os voos para a Disney.

Haverá pandemias, mas os vírus serão muito mais compassivos. Não nos prendamos a fórmulas, pois elas não servem para criar os dias vindouros. Como diz Eliot:

Os olhos que fixam na fórmula de uma frase;

Mas se a fórmulas me confino, gingando sobre um alfinete,

Ou se alfinetado me sinto a colear rente à parede,

Como então começaria eu a cuspir

Todo o bagaço de meus dias e caminhos?

Sonhando em recuperar o pensamento

Glauber Rocha em Paris

Por João Gabriel Almeida

Glauber Rocha nos disse na Eztetyka da Fome que a arte latino-americana transitava entre a hysteria e a esterilidade. O mesmo desafio enfrenta hoje o pensamento crítico na América Latina:

  1. a esterelidade, que, como o sonho de universalidade, cria monstros oficiais da cultura, como revistas literárias e concursos.
  2. A histeria, que, como sistematização da arte popular, acaba por infundir humanidade no colonizador.

A solução para essa contradição seria proposta por Glauber três anos depois, quando ele disse que a questão não é simplesmente destacar o grande trauma da América Latina, a fome, mas ativar a capacidade de transe místico que a fome desencadeia. 

A esterilidade está hoje no pensamento teórico, que grandes intelectuais como Estela Quintar e Hugo Zemelman nos levaram a questionar. O que eu quero propor aqui é que a tarefa do presente consiste em confrontar a histeria. 

Uma visão linear, simplista e baseada apenas na externalidade dos fatos parece estar se tornando a regra entre os chamados progressistas. Contudo, até que ponto rompemos assim com os limites inferiores impostos pelo colonizador? Precisamente o que estamos vislumbrando, desde que o fenômeno da cauda longa se revelou por meio do modelo econômico da Amazon, é que a diferença se torna lucrativa em um modelo econômico governado por plataformas digitais. Um nicho, por menor que seja, justifica a produção de mercadorias para consumo, bastando, para tanto, que o valor de sua produção seja compatível com a demanda. Para as mercadorias intelectuais, alcançar essa condição se tornou relativamente simples. 

Os passos entre pensar e fazer um vídeo, uma página da web ou um livro são encurtados a cada nova plataforma que surge. Disponibilizam-se interfaces cuja utilização é crescentemente facilitada. Isso pode ser claramente verificado na produção de conteúdo audiovisual. No processo que nos levou dos complexos métodos de corte e edição de fitas até as ferramentas de edição digital, e daí ao TikTok ou ao Kwai, fomos sendo lançados em um universo no qual a plataforma projeta as coordenadas de elaboração estética: qualquer conteúdo é aceito, desde que jogue dentro das regras propostas pela interface. 

Isso viabilizou o livre desenvolvimento de dois dos três sintomas histéricos que Glauber identificou ao refletir sobre o pensamento crítico, a saber: (a) o prazer de estar sempre correto, que a adulação narcisista do nicho a que se pertence permite ao sectarismo; e (b) a consolidação de uma postura muito particular da intelectualidade crítica que migra da periferia para os países centrais: aproveitando o desejo de certos setores de promover o cosmopolitismo pela diversidade, criam-se pequenos espaços na produção internacional do conhecimento com base em conceitos como originalidade ou descolonização, que operam como pilares de poder dos quais nenhum homem branco dos países centrais teria autoridade para falar. Nos termos da já mencionada dinâmica da nova economia de plataformas, sistematizar um pensamento popular, ancestral e latino-americano converte-se em uma reserva de mercado que verbaliza um grito impotente de alocação de recursos do colonizador para o sustento desse discurso histérico.

Diante de tais circunstâncias, o imperativo de Simón Rodríguez — “Ou inventamos, ou erramos” — parece mais urgente do que nunca. Exatamente como Glauber propôs há 53 anos, deixar para trás aqueles lugares que favorecem a matriz colonial do pensamento exige sonhar — um sonho na dimensão radical da capacidade constitutiva que temos como seres humanos para exercer a livre associação da memória em função de um projeto. O grande dilema que vivemos como homens e mulheres latino-americanos que transitam no espaço da cultura é precisamente restabelecer o lugar de palavras como invenção, sonho, criação e utopia. 

O capitalismo de plataforma já reserva para essas coisas todas um lugar demarcado.  A inventividade humana é a força motriz por trás da maioria das plataformas de publicidade, tais como o Facebook, o YouTube e o Google. O trabalho diário das grandes marcas é convencer-nos a construir nossos sonhos a partir de seus símbolos, a fim de fazer expandir seus mercados. O Facebook e congêneres lutam dia após dia contra outras referências para permanecer relevantes em nossa imaginação. A bandeira LGTBTQ+ pode ser o recheio do biscoito. A marcha das mulheres pode ser o mote para uma propaganda de refrigerante. O convite das marcas é para que as amemos como parte de nossas memórias, de nossa história, e que inventemos nossos sonhos com base nelas. Elas articulam a venda dos sonhos de outras pessoas como seu mercado mais lucrativo, na forma de videogames e filmes. Desse ponto em diante, cada vez mais, toda a criatividade acaba servindo para alimentar a indústria cultural. Grandes universos comerciais como a Marvel estabelecem as referências para toda ação criativa por meio de youtubers, designers, fanfics. As crianças projetam suas aventuras e horizontes a partir do modelo dado por bonecos dos Vingadores. 

Em direção à mesma estrutura, via plataformas como a Scopus ou a Web of Science, caminha o pensamento acadêmico. Podemos escrever sobre qualquer coisa, desde que seja a partir das formas de validação estabelecidas por essas plataformas. O mais citado torna-se o Thor e o Homem de Ferro do pensamento acadêmico. São eles a referência para a construção de nossas aventuras.

O reposicionamento do sujeito ante sua história — entendendo a dor e a delícia de ser o que é, como escreveu Caetano — é um dos desafios que o pensamento crítico latino-americano nos ensinou. Mas agora, mais do que nunca, é necessário ir além, a fim de entender que isso serve para escolher e criar nossas próprias profecias e critérios para sua realização.  O grande desafio da época é como gerar exercícios criativos que não sejam apenas esterilidade ou histeria, e que permitam ao sujeito assumir as capacidades inerentes a todos os seres humanos de sonhar acordado, ou seja, de criar. Trata-se de entender que não há segurança que deva condicionar os critérios de uma criação; trata-se, além disso, de entender que a parte mais excitante e difícil do ato criativo é estabelecer seus próprios critérios de funcionamento, uma vez que esse ato é sustentado por nada mais do que o imperativo daquilo que o criou. A criação passa por um desafio ainda maior de reativar — como parte de nossa própria memória e como sujeitos epocais que somos — uma herança que está localizada nos Glaubers, Alciras, Estelas, Hugos, Adrianas, Carlos, Olgas, Benkos, Paulos, entre muitos outros pontos sinápticos de articulação criativa. A tarefa não é constituir um feudo de sabedoria comercial para uma parcela minoritária dos centros de conhecimento dos países centrais, mas insumos para uma recriação articulada de nossa realidade. 

O clichê de John Lenon — “Um sonho que você sonha sozinho é apenas um sonho; um sonho que você sonha com outra pessoa é uma realidade” — já foi repetido muitas vezes antes. O verdadeiro desafio é dar um passo atrás e reaprender a sonhar.

João Gabriel Almeida é investigador e docente do Instituto de Pensamento e Cultura na América Latina, no México. É também Membro do Grupo de Trabalho em Educação Popular e Pedagogias Críticas do Conselho Latino-Americano de Ciências Sociais (CLACSO)

Tirinhas: Gabriel Freitas

A Subtrópicos inaugura neste número uma seção dedicada a quadrinistas. As duas tirinhas abaixo são assinadas por Gabriel Freitas, um jovem talento de apenas 18 anos de idade. Super antenado em história e política, ele criou Seu Bordo, um senhor de idade ranzinza que, sentado em um ponto de ônibus, dialoga com um cão meio filósofo, meio psicanalista. O personagem se baseia no líder marxista italiano Amadeo Bordiga (1899-1970). “Como Seu Bordo, Bordiga era um eterno insatisfeito”, comenta Gabriel. “Criticava todas as propostas da esquerda italiana, mas acabou apoiando Benito Mussolini.”

OGD: um conto de Carlos Henrique Schroeder

Caravaggio. Salomé com a cabeça de S. João Batista (1610)

Ele esperava OGD, mas enquanto não chegava, restavam os dias comuns e as pequenas tarefas. Olhava de hora em hora o WhatsApp, mas o que realmente interessava não aparecia por lá, por enquanto. E seguia nas suas tarefas, as profissionais (web developer freelancer), e aquelas, as outras, que tinha o maior prazer de executar. Era um intermediário, mas isso mudaria, em breve. Recebia as mensagens do organizador, com o nome das pessoas, e arquitetava a melhor maneira de fazê-las pagarem por seus atos, sua existência. “Sou um justiceiro.” “Estamos devolvendo a dignidade ao Brasil, colocando as coisas no devido lugar.” No grupo, cada qual tinha sua tarefa, de acordo com suas habilidades. Ele vazava vídeos íntimos, clonava cartões, invadia redes sociais, emitia boletos falsos, roubava fotos dos filhos e as jogava na deep web (para os pedófilos de plantão), descobria se a pessoa tinha algum amante ou caso e fazia isso chegar ao conhecimento da outra parte. Tudo pela rede, na segurança de sua poltrona, sem correr riscos, já que sabia muito bem como esconder seu IP. Trabalhava em casa, e a casa era o seu mundo. O perfil das vítimas era claro: líderes esquerdistas, feministas, gays, judeus, negros.

Quando alguma dessas pessoas se perguntava por que tudo estava dando errado em sua vida, para eles tudo estava dando certo. Havia muitos como ele, mas que cuidavam da parte física dessas ciladas silenciosas. Forçavam alguma batida automotiva ou uma sequência de esbarrões na rua (imagine você levar três, quatro esbarrões no mesmo dia. São eles, saiba disso), o roubo do seu celular ou dos documentos, um soco do nada, no meio da rua, um estupro, ou apresentar drogas pesadas aos seus filhos. Tudo para fazê-lo sofrer. O sofrimento alimenta.

Ele não conhecia seu superior imediato, que provavelmente tinha outro superior e assim por diante. O WhatsApp era o refúgio, e mesmo assim se cuidavam, conversavam por códigos. Eles sabiam o que queriam. E quando queriam. Então um dia a mensagem chegou: OGD. Avenida Marechal Deodoro, esquina com a Barão do Rio Branco, 10h.

Era noite, não dormiu. Aprontou e conferiu tudo. Fitava ora a sacola de pano, em cima da pequena mesa da cozinha, ora o ponteiro do relógio da parede, que girava devagar. Conferiu inúmeras vezes, em um aplicativo, o número de passos, a distância e o tempo que levaria para chegar até o local indicado. Quinze minutos. 9h35min. Pega a sacola de pano e sai do apartamento (já assoviando o tema conhecido), não tranca a porta. Entra no elevador, desce, atravessa a portaria do seu edifício e enfim está na rua. É um lindo dia, quase sem nuvens, a temperatura está agradável, uma bela manhã para uma caminhada: são sete quadras até o destino. Vai devagar, tem tempo, saiu mais cedo. O trajeto não traz percalços, todo plano, com faixas de pedestres, sinaleiras, mas muitas pessoas seguem o mesmo fluxo, vão para lá, como ele, mas obviamente não todas com o mesmo propósito. Consegue ver a aglomeração, está próximo: a rua está fechada, e apinhada de gente para a manifestação. Cem passos para o destino. Já no meio da multidão, da massa. Coloca a máscara verde, que cobre praticamente todo o seu rosto, e chega no seu ponto. Faltam dois minutos. A passeata está lá, quase formada, se preparando para sair. Não param de chegar pessoas, alguns olham para ele e riem. O louco, mascarado. Mais adiante, a alguns metros, há outro mascarado, e outro, e outro. Não está sozinho, ninguém está sozinho, não agora, “agora é a nossa vez, é a nossa história e a nossa hora”, pensa ele. A música vai aumentando, mas só na sua cabeça, e cobre os gritos de ordem e as frases feitas dos grupos, todos muito felizes, celebrando, se abraçando. Olha para o relógio. Um minuto. Mão na sacola. Sente o frio e a rigidez. Encontra a melhor maneira, o encaixe. Sorri e espera. O sol está alto, não deveria ter olhado para cima, sente um pequeno incômodo nos olhos. Faltam alguns segundos, mas alguém se adiantou: os primeiros estampidos. Uma sequência que se segue a outra e outra. As pessoas correm, o que libera espaço e campo de visão. Foi tudo muito rápido, e quando percebe que seu cartucho está vazio, pega outro na sacola e troca, mas não tem mais multidão, sumiram, só uns mortos no chão, outros gemendo e se arrastando. E eles, em pé. Hora do pente-fino. Resolver os que estão se mexendo, no chão. Não tem muita graça, mas uma lasca de memória o anima, do início, de quando começou a atirar, e as pessoas corriam e caíam. Muito melhor que videogame. Mulheres gritam muito, e muito alto, e isso o irrita. Já os homens são ridículos, imploram, choram, rastejam. Ele escorrega numa poça de sangue e quase cai, um dos mascarados ri. Tudo bem.

O Grupo de Resposta Tática chegará em poucos minutos, ele sabe, viria chumbo grosso, mas a música já havia tomado conta dele, que canta um dos trechos, muito alto: “ou ficar a Pátria Livre ou Morrer pelo Brasil”, e nada mais importa. Entre os dentes o “brava gente, brasileira”, e para ele a independência estava só começando. O Grande Dia chegou.

Carlos Henrique Schroeder nasceu em 1978. É autor da coletânea de contos “As certezas e as palavras” (Editora da Casa, 2010), vencedora do Prêmio Clarice Lispector, da Fundação Biblioteca Nacional, e do romance “As fantasias eletivas” (Record, 2014). Publicou também “História da chuva” (2015) e “Aranhas” (2020), ambos pela Record. Este conto foi originalmente publicado na revista Época.

A democracia não tem nenhum charme

Por Heron Moura

Sempre achei curioso que as pessoas intelectualizadas se apeguem ferrenhamente a conceitos obscuros ou muito vagos, como dispositivos discursivos, transvaloração e ser-aí. Conceitos muito mais relevantes, como democracia e lei, são deixados de lado, quando não são vistos com desprezo e menoscabo. A verdade é que a democracia não tem nenhum charme.

Nestes tempos em que o próprio Chefe de Estado ataca a democracia e as leis, os intelectuais se viram de mãos vazias. Tiveram de passar a defender conceitos com os quais não costumavam lidar. Era como se tivessem sido obrigados a trabalhar no campo e a plantar batatas. As batatas que sujam de terra as mãos dos intelectuais são a democracia, as leis e as instituições. São frutos banais, cultivados e desenvolvidos há séculos, mas que parecem, nessas mãos de agricultores noviços, algo intelectualmente novo e desafiador. Batatas e outros frutos da terra não têm nenhum charme.

A questão é que os autores que fecundaram conceitos saborosos e charmosos como dispositivo discursivo, transvaloração e ser-aí não tinham compromisso algum com a democracia e com o império das leis. Essa fina flor do mandarinato acadêmico da França e da Alemanha não tinha nenhum apego a instituições democráticas e a tudo aquilo que é gestado no consenso. A própria noção de consenso lhes parece abominável.

A democracia era o inimigo a ser vencido com as armas da inteligência, assim como hoje ela está sendo vencida com as armas da burrice. Basicamente, a fina flor do dissenso defendia que a democracia é uma mera aparência de liberdade. Tudo que emana da vida social (especialmente nas democracias modernas) é visto como uma limitação das forças profundas da vida e da ontologia. Para esses mandarins da inteligência (gente como Nietzsche, Heidegger e Foucault), só tem valor o que emerge obscuramente dos porões da vida e se insurge contra as forças dominantes da sociedade disciplinar. A democracia é vista como uma disciplina a ser seguida. E, como sabemos, disciplina é algo sem nenhum charme.

Os intelectuais, especialmente no Brasil, passaram a cultivar essa flor rara, essa orquídea escura da negação do consenso. A intenção sempre foi anular o império da lei. Quando Bolsonaro assumiu a presidência e do centro mesmo do poder passou a desferir ataques à democracia e às leis, os intelectuais se viram desamparados. Tiveram que passar a defender conceitos nos quais nunca haviam pensado, assim como nunca haviam antes cogitado em fazer uma descrição minuciosa dos tubérculos. Até então, eles só tinham se dedicado a criticar todo o sistema que produzia batatas e, simultaneamente, comedores contumazes de batatas.

Mas não é só para os intelectuais que a democracia carece de charme. De um modo geral, as pessoas odeiam a contenção. E a democracia é um sistema muito bem regulado de contenções. As leis na democracia (e elas são cada vez mais numerosas) são moldadas para conter as ações que são vistas como danosas para a coletividade. Cito a seguir um exemplo concreto e palpável. A coleta de lixo foi se tornando cada vez mais legislada: separação, acondicionamento e coleta são regulados por dispositivos legais. Agora, em Florianópolis, os condomínios serão obrigados a ter um recipiente específico para vidros. E, em breve, seremos obrigados a ter nossa própria composteira! Teremos que aprender a conviver com minhocas!A democracia é uma imposição. Haverá sempre alguém que não deseje seguir a norma imposta. E quanto mais próxima e democrática é a instituição que promulga a lei, mas somos levados a odiá-la. Se um rei distante e quase imaginário estabelece uma nova lei, tendemos a considerá-la uma fatalidade, quase como uma mudança brusca no tempo. Mas se a lei é baixada por uma autoridade muito próxima, conhecida de nós, sentimo-nos lesados e quase humilhados.

Cito dois exemplos de democracia direta em miniatura: assembleias de condomínio e reuniões de departamento em universidades públicas. As normas definidas nessas instâncias são intrinsecamente democráticas, pois cada pessoa representa a si mesma. No entanto, o síndico e o chefe de departamento são costumeiramente criticados por aplicar a regra que tinha sido debatida à exaustão e depois votada por todos que estavam presentes. O síndico é um ditador que segue as regras! A democracia é uma imposição.

Se a democracia já não tem charme, imaginem as leis. Há alguém que ame as leis em si mesmas? Todavia, Montesquieu afirmava que a república mais forte é aquela na qual a lei é seguida por paixão e não por medo. Associar lei e paixão nos parece algo esdrúxulo. Aliás, Montesquieu não é um cara charmoso: o principal livro dele se chama O espírito das leis. Parece mais bibliografia de curso de Direito, e não referência para quem quer entender a abissal natureza da dominação! É muito mais cool citar Nietzsche, que dá voz aos obscuros impulsos da vida que não pode ser contida nos parágrafos de uma lei! Só que Nietzsche era consistente na sua descrença: ele renegava virulentamente a democracia. Transcrevo esta longa citação de A Genealogia da Moral porque ela mostra sem meias palavras não apenas o ódio que Nietzsche nutria pela democracia, mas também o seu racismo intrínseco: “O mesmo é válido para praticamente toda a Europa: no essencial, a raça submetida terminou por reaver a preponderância, na cor, na forma curta do crânio, talvez até mesmo nos instintos sociais e intelectuais: quem nos garante que a moderna democracia, o ainda mais moderno anarquismo, e sobretudo essa inclinação pela commune, pela mais primitiva forma social, que é hoje comum a todos os socialistas da Europa, não signifique um gigantesco atavismo – e que a raça dos conquistadores e senhores, a dos arianos, não esteja sucumbindo também fisiologicamente?”

Nessa passagem, o misantropo filósofo alemão associa a democracia a uma ressurgência dos traços de uma raça dominada, inferior. E tal atavismo estaria levando de roldão a própria superioridade dos arianos, conduzindo-os à degeneração. A democracia seria o desprezado fruto de uma raça de escravos. E logo depois dessa passagem, numa etimologia delirante, Nietzsche deriva o termo latino bonus (bom, nobre) da palavra duo (dissensão, disputa). Ele quer dizer, com esse malabarismo etimológico, que o homem bom, nobre, não é aquele que aceita as regras, mas o que as rompe (o guerreiro se alimenta do conflito, o cidadão é um ser que se submete…). O consenso que a lei impõe (ela é potencialmente a mesma para todos e todas) é absolutamente contrário a esse ideal da dissensão e da disputa. O que vocês acham que teve mais sucesso entre os acadêmicos, a nobreza da dissensão nietzscheana ou a paixão pela lei de Montesquieu? O que é mais charmoso: um guerreiro medieval ou um cidadão que recicla o lixo, separa os vidros, cultiva a sua composteira e se orgulha de sua própria linhagem de minhocas?

Heron Moura é escritor e professor da UFSC. Publicou O respirante (7Letras, 2006) e Uma Breve História da Linguística (Vozes, 2018), entre outros. E-mail: heronides@uol.com.br

O chão da mente: Entrevista com Luiz Costa Lima

Luiz Costa Lima em sua biblioteca.
Foto: Marcelo Machado e Fernando Fonini/FLIP

Por Aline Magalhães Pinto

Luiz Costa Lima é professor emérito da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-Rio). Lecionou em várias universidades americanas e europeias. É autor de mais de trinta livros, muitos dos quais traduzidos para o inglês e o alemão. Recebeu, em 1992, o Prêmio Humboldt, concedido pela Fundação Alexander Von Humboldt, de Bonn.

Incansável, ele acaba de lançar O chão da mente: a pergunta pela ficção (Editora da Unesp, 2021), obra em que retoma a reflexão sobre a mímesis e a atrela a uma concepção de escrita e de linguagem como instâncias abertas, perpassadas pelo real e, por isso mesmo, aporéticas.  A seu ver, o limite de cada formação discursiva é, ao mesmo tempo, sua especificidade, qualidade e condição de possibilidade.

Na entrevista a seguir, ele fala sobre sua impressionante trajetória intelectual, com especial atenção às ideias que apresenta em O chão da mente.

Subtrópicos: O conjunto de livros formado por O controle do imaginário e a afirmação do romance (2009), A ficção e o poema (2012) e Frestas (2013) representa claramente a expansão do campo de incidência da mímesis e o questionamento dos limites da representação-efeito, que haviam sido desenhados ao longo dos anos 1980 e 1990 (especialmente naqueles trabalhos reunidos em Trilogia do Controle e Mimesis: desafio ao pensamento). Em 2016, Os eixos de linguagem, exclusivamente dedicado ao pensamento de Hans Blumenberg, parece ser o ponto de uma nova inflexão em seu projeto intelectual, desfraldando o conjunto formado por Melancolia (2017), Mímesis e arredores (2017), O insistente inacabado (2018) e Limite (2019), volumes que, tratando de temas, autores e textos ficcionais bastante diversos entre si, mantêm o traço que constitui uma espécie de assinatura em sua obra: um rigoroso tratamento teórico da ficção que sustenta ao mesmo tempo em que demanda um entendimento específico do que seja a mímesis. A despeito dessa constante, esses últimos livros apontam para a disposição antropológica que se entranha ao ficcional, culminando com O chão da mente, recém-lançado. Como você percebe a importância que os elementos de uma antropologia filosófica foram ganhando em seu percurso?

Luiz Costa Lima: Antes de responder propriamente a sua pergunta, ressalto, Aline, o acerto do resumo que você fez do caminho que tenho palmilhado. Acentuo que tal repensar me pareceu decisivo porque, a partir dos românticos, quando se deu ênfase ao papel do sujeito criador, a mímesis passou a ser concebida como expressão. Mais recentemente, entre os pensadores do século XX, tem-se apresentado a seguinte alternativa: mantendo-se a negação da clássica resposta – mímesis é imitatio (o que não queria dizer cópia mas sim retomada de uma disposição já anteriormente dada) –, ou bem se assume uma variante da ideia de retomada, ou bem se ignora a própria questão da mímesis. Assinalo que em Wolfgang Iser aparece outra deriva: mímesis é performance. Não o sigo porque isso supõe que a caracterização da mímesis varia a cada nova obra, quando, de minha parte, digo que, sem poder caber em um conceito, a mímesis implica o esboço de um conceito, i.e., sendo nela dominante a diferença, esta, contudo, tem uma disposição ao semelhante. Qual? A que lhe é dada pela força dominante da metáfora, que nunca se esgota em um sentido. É pelo peso então concedido à metáfora que Blumenberg tem sobre minha teorização a carga que você, Aline, reconheceu. O retrospecto acima ajudará a compreensão da resposta. A ênfase no relacionamento interno entre mímesis e metáfora implica a necessidade de repensar a questão dos discursos. Por quê? Porque, salvo o discurso matemático, todo discurso – o filosófico, o científico (com a diferença entre o das ciências naturais e humanas), o teológico, o cotidiano (se, apesar de suas diferenças, for possível codificá-lo em uma forma discursiva) – contém uma margem metafórica. Ou seja, nenhum discurso, com exceção do matemático, deixa de ter uma margem, ainda que pequena, de metaforicidade. Portanto, para a diferenciação mais precisa da relação entre mímesis e ficção, será preciso entender melhor a presença, conquanto pequena, da metafóra noutros discursos. É por conta da amplidão da questão – a teoria dos discursos – que digo que a reflexão sobre a mímesis conduz ao campo de uma antropologia filosófica. Com isso, automaticamente estou declarando que não posso pensar que o problema da mímesis possa ser da competência de um especialista ou mesmo de uma equipe que a ele se associasse. A teoria dos discursos por si já exige essa pluralidade de especialistas; que ela se encaminhe para uma antropologia não etnográfica ou etnológica implica uma pluralidade ainda maior. Em suma, ao afirmar a competência de uma antropologia filosófica, estou dizendo que reconheço que meu esforço, ou o que por meio dele ofereço, é uma parcela muito pequena do que se deve prever.

Subtrópicos: Em Mímesis: desafio ao pensamento, um capítulo fundamental é aquele em que você traça um panorama da reflexão ocidental a respeito da subjetividade, chegando à elaboração do sujeito fraturado. Em O chão da mente, mais uma vez, há a presença de uma arqueologia do sujeito e uma revisita à questão que culmina num estudo profundo sobre Georg Simmel, autor cuja “metafísica do imanente” parece servir como anteparo e desvio ao enfrentamento das consequências teóricas da fratura do sujeito. Desembaraçar a mímesis supõe esse enfrentamento?

“Creio que a relação da mímesis com a subjetividade se põe desde que se concedeu ao sujeito individual um papel decisivo na elaboração do pensamento. Assim explico por que Hegel tem tido um papel mais importante no desdobramento do pensamento ocidental do que Kant. “

Luiz Costa Lima: Creio que a relação da mímesis com a subjetividade se põe desde que se concedeu ao sujeito individual um papel decisivo na elaboração do pensamento. Assim explico por que Hegel tem tido um papel mais importante no desdobramento do pensamento ocidental do que Kant. Sua tríade tese/antítese/Aufhebung (‘suprassunção’, — esqueçam, por favor, a tradução inidônea de ‘síntese’), sem se confundir com a noção de progresso, supõe, de todo modo, que a história traz um avanço, algo que não se delineia em Kant. Por essa razão, dediquei-me durante meses a ler e reler Simmel, por me parecer que seu pensamento deu maior força a essa suposição de um sujeito que, unificado em si mesmo, se projeta no pensamento que constitui. Contra esse sujeito autocentrado, parto do pressuposto de que só podemos escapar desse individualismo teorizado pelo desenvolvimento de que cada sujeito é uma pluralidade de faces que se disfarça de si próprio e daqueles que o cercam tomando uma dessa faces, desde que legitimada pela sociedade em que se integra, como a única. Quero dizer: o eu que, profissionalmente, é um comerciante, um profissional liberal, um político ou um pastor não se conduz com coerência em todas as outras situações de sua vida. Não se trata de propor a reescritura das biografias e autobiografias mas de dar condições para que se entenda a variação de eus que se oculta, consciente e/ou inconscientemente, em cada eu. Mas entendo que, das pistas que abri, essa é a que menos desenvolvi.

“Gilberto Freyre tinha razão quando apontava que o ensino jesuítico, ao exaltar o talento brilhante, e não o mais profundo, nos marcou profundamente.”

Subtrópicos: Ao longo de O chão da mente, você afirma que a direção hegemônica em relação ao fenômeno ficcional consiste em explicá-lo em função do ambiente sócio-histórico que o condiciona. A condição para ruptura desse estado de coisas é a reflexão teórica, sem dúvida. Há décadas você aponta a resistência à teorização, especialmente em nosso contexto intelectual. As razões dessa recusa permanecem as mesmas, ou você consegue perceber uma mudança na configuração de nossa formação intelectual que, contudo, leva ao mesmo caminho antiteórico?

Luiz Costa Lima: Esse é um aspecto que julgo de extrema relevância. A resistência à teorização, entre nós, continua a ter uma mesma razão, sem que, por isso, não se lhe agregue outra, bem recente. A mesma razão é a ausência, em nosso ensino, da prática da reflexão. Gilberto Freyre – autor com quem não simpatizo – tinha contudo razão quando apontava que o ensino jesuítico, tendo por base o latim e a retórica, e exaltando o talento brilhante em vez do mais profundo, nos marcou profundamente. Dou um exemplo. Há poucos dias, participamos, Aline e eu, de uma live acerca de meu livro mais recente, O chão da mente. Não posso lamentar que nem sempre minhas respostas tenham sido completas – a improvisação da resposta instantânea não permitiria melhor desempenho. Mas me queixo de minha resposta incompleta a propósito especificamente da questão que me era posta sobre a relação entre o que chamei de mímesis zero e o fenômeno que muito se tem destacado, entre nós, a propósito da história como presença. Preocupei-me em explicar o que entendo por mímesis zero e terminei por escapar da resposta. A mímesis zero significa simplesmente o seguinte: uma cena qualquer, em princípio sucedida em nossa própria vida, recebe mais adiante destaque, por uma razão qualquer. Assim é que aquela cena é deslocada para outra situação e recebe um tratamento ficcional – i.e., não é vista como decorrente da situação que fora efetivamente vivida, senão que impulsiona uma outra experiência. Está formada a dualidade mimesis/ficção. Ter ela a forma zero significa apenas que pode ir adiante ou fracassar. Pensar a história como uma forma de presença significa separar elementos de realce dos que são considerados subalternos. Não me parece que essa seja uma boa maneira de pensar a História, mas o que não disse é que isso não tem nada a ver com mimesis zero, cujo alicerce fundamental é o deslocamento da cena vivida para outra, imaginada. Dou o exemplo para assinalar que a aproximação não só era falsa como me parece dependente de uma falta de aprofundamento quanto aos termos aproximados, mimesis zero e presença. De todo modo, voltemos à pergunta: se então a resistência à teorização decorre de uma falha educacional que permanece conosco, manifestada pela ênfase na descrição e resumo do que se leu, e não na reflexão questionadora, há um fator mais recente que sobrecarrega essa falta. Ela é bem manifestada pela formulação da pergunta que se segue nesta entrevista. Peço ao leitor que atente para a pergunta, pois será a ela que agora responderei.

Subtrópicos: Em uma reportagem da BBC de 31 de maio, eu lia sobre um relatório do OCDE (Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico) sobre a chamada “geração digital”, composta por aqueles nascidos no século XXI. E essa pesquisa chega à conclusão de que eles são, em grande parte, incapazes de compreender nuances ou ambiguidades em textos online, de localizar materiais confiáveis em buscas de internet ou em conteúdo de e-mails e redes sociais, de avaliar a credibilidade de fontes de informação ou mesmo de distinguir fatos de opiniões. Não se trata, obviamente, de fazer um discurso de preconceitos contra os jovens. A relevância desse tipo de proposição está em nos colocar despertos a respeito de uma nova situação cognitiva, que nos faz pensar não somente no papel da ficção, como agente de perspectivação das verdades discursivas, mas também na sobrevivência da forma ficcional.

Como você — que se dedica, há tanto tempo, ao estudo da linguagem em suas diferentes formas, à narrativa, à poesia e aos mecanismos através dos quais a sociedade ocidental se “comunica” — vê a questão do futuro da ficção? Seria possível relacionar essa situação cognitiva ao predomínio, na cena contemporânea, de uma literatura presa à dimensão testemunhal, mesmo quando ela se disfarça de “auto-ficcão”?

“A perspectiva que a contemporaneidade nos apresenta não é das melhores. Podemos contudo pensar: ao longo da história já devem ter-se apresentado situações críticas que foram vencidas. Esperemos que esta também seja.”

Luiz Costa Lima: Como não há um dia em que eu não veja TV, sobretudo destacando os jogos (de futebol e voleibol) e os noticiários, a referência à reportagem da BBC não chegou a ser novidade para mim. Há algum tempo que me perguntava que será das gerações que fazem da comunicação mediática e dos videogames sua fonte predileta de informação e divertimento. A incapacidade que, segundo Aline, a reportagem assinalava de compreender nuances ou ambiguidades em textos online é um dado alarmante. O mal não nos atinge somente a nós, mas, nos países desenvolvidos, há outros meios de interrelação passíveis de minorar aquela estreiteza. Acentuo a interrelação com o texto acadêmico, ou seja, a interrelação acadêmica. Por certo, ela sofrerá empobrecimento mediaticamente operado, mas, à medida que esteja entranhada na cultura da comunidade em que se realize, deverá poder minorá-la. De todo modo, a perspectiva que a contemporaneidade nos apresenta não é das melhores. Podemos contudo pensar: ao longo da história já devem ter-se apresentado situações críticas que foram vencidas. Esperemos que esta também seja. Mas, em vez de abrandar uma perspectiva ruim, muito ruim, parece-me preferível aproveitar a ocasião de falar para um público maior ao que estou acostumado para dizer: levemos em conta o mau hábito que nossa academia costuma manter, convertendo os alunos em mestres da repetição, e procuremos, à medida que sejamos agentes no processo, não repetir o mau hábito.

Aline Magalhães Pinto é professora da área de Literatura Comparada e Teoria Literária e do Programa de Pós-Graduação em Estudos Literários da UFMG.

A vida depois de Bolsonaro

O político americano Richard Nixon

Por Fábio Lopes da Silva

Para um mestre: Luiz Costa Lima

Em novembro de 1962, depois de duas derrotas eleitorais consecutivas, Richard Milhous Nixon — que já havia sido deputado, senador e vice-presidente dos Estados Unidos — achou que era hora de pendurar as chuteiras. A sua frase de despedida, dita durante uma entrevista coletiva em um exuberante hotel de Beverly Hills, é até hoje célebre: “you don’t have Nixon to kick around anymore” [vocês não tem mais Nixon para chutar por aí].1 Com esse you, ele não queria se referir apenas aos jornalistas que se acotovelavam a sua frente. Seu alvo principal era, na verdade, toda a imprensa e a intelectualidade liberais americanas, a elite educada na Ivy League e os adversários do Partido Democrata, com quem Nixon sempre se mantivera em pé de guerra.

É comum que as pessoas continuem a se recordar do adieu de Nixon como mais um sinal de sua personalidade notadamente sombria, ressentida e vingativa. Elas não deixam de ter razão. Mas é preciso admitir que suas palavras também carregam um sentido muito mais incômodo e perturbador. É como se Nixon estivesse dizendo: ‘Ok, vocês venceram: eu sou mesmo um problema e, por isso, estou indo embora. Mas, agora que já não faço mais diferença, vocês logo perceberão que eu não sou todo o problema — e que vocês talvez sejam parte dele. Pior: ao desaparecer da cena, eu os deixo sozinhos consigo mesmos, isto é, sozinhos com sua sabedoria e sua elegância mas também com seus demônios e fantasmas, esses mesmos demônios e fantasmas que vocês exorcizam chutando meu traseiro diariamente, há anos.

O farewell to arms de Nixon reverbera no Brasil de Bolsonaro, sobretudo neste momento em que o presidente parece estar definitivamente descendo a ladeira rumo não apenas a uma derrota política acachapante mas a um desfecho ainda mais doloroso e trágico para ele (a prisão? a execração pública? o suicídio?). Sim, é verdade que Bolsonaro é uma pessoa horrenda e indigna. Sim, é verdade que é preciso derrotá-lo e que ele bem merece a punição que se anuncia, seja ela qual for. Não obstante, nós, os que sonhamos com a sua ruína política e até pessoal, estamos realmente prontos para viver em um país sem Bolsonaro? Para começar pelo mais simples: teremos que encarar uma crise social tenebrosa, que seu governo agravou mas está longe de ter produzido. É fato que, em compensação, seremos devolvidos a uma certa normalidade política,  mas nem mesmo isso é completamente confortável, porque nem tudo nas normalidades políticas é completamente confortável. Explico: quando se interromper o fluxo vertiginoso de emoções bolsonarogênicas que atualmente nos engatam em uma sensação de presente infinito, lembrem-se de que estaremos obrigados a voltar a lidar de modo minimamente maduro com o tempo em sua complexidade, isto é, com o passado (que nossos mitos de origem tentam edulcorar mas que, regra geral, em quase nada se parece com “tardes fagueiras, à sombra das bananeiras, debaixo dos laranjais”) e com o futuro (que tem a indelicadeza de se repor como uma cárie a ser obturada a cada manhã, mesmo quando as auroras sucedem dias em que o sentimento de sucesso e  dever cumprido parece tão pleno). 

No Brasil sem Bolsonaro, fiquem sabendo, descobriremos muito mais, a saber, que essa coisa de viver sob uma torrente caudalosa de emoções — júbilos e ultrajes que se repetem em ciclos intermináveis — não nos era imposta pelo presidente (se bem que ele seja realmente bom em manejar isso); que nós é que aspiramos permanecer sob essa torrente; que, depois do ocaso de Bolsonaro, seguiremos tomados pelo impulso de consultar mil vezes por dia as redes sociais em busca daquela sensação desaparecida, de um novo shot. Estaremos preparados para admitir essa verdade desagradável?

Eis, por fim, o mais indigesto naco de carne de pescoço a deglutir: quando não tivermos Bolsonaro to kick around anymore, restará claro que sua personalidade grotesca e miserável nos era, ao menos até certo ponto, funcional. Com efeito, o Capitão é tão escabroso que faz qualquer um de nós — os canalhazinhos bissextos ou assíduos que no fundo todos somos — se sentir bem dentro de sua pele. Bolsonaro, com sua maldade proverbial, é o fiador da nossa autocomplacência — desse confortável autoengano que nos convence de que a culpa não é nossa ou, mais que isso, de que somos absolutamente inocentes. Quaeritur: seremos capazes de sacrificar esse fiador e viver sem o doce remanso dessa inocência? E no entanto, é preciso: não existe inocente útil. A inocência é, no mínimo, inútil — inação — e, na pior das hipóteses, horrivelmente deletéria, visto que os que se supõem puros sentem-se plenamente autorizados a se omitir diante das piores barbáries ou a cometer as maiores atrocidades com a consciência intacta e feliz.

_______________________

Nota

1 Nixon voltou à política em 1968, vencendo as eleições presidenciais pelo Partido Republicano. Foi reeleito em 1972. Pouco depois, em 1974, tornou-se o primeiro presidente americano a renunciar ao cargo, em decorrência do escândalo conhecido como Watergate.

Fábio Lopes da Silva é o atual diretor do Centro de Comunicação e Expressão da UFSC. Acaba de publicar Sadopopulismo: De Putin a Bolsonaro (Insular, 2020). E-mail: phabio.lopez6619@gmail.com

Crie seu site com o WordPress.com
Comece agora