Hegel e Haiti: negros insurrectos e o ciúme do iluminismo

Shadows of Liberty (2016), de Titus Kaphar. Yale Art Gallery.

Por Ronald Augusto

Ao contrário do que a tradição filosófica apregoa a respeito do seu processo de investigação, nem sempre os esforços de análise dos filósofos atendem a critérios estritamente lógicos e de necessidade universal doa quem doer. O ensaio de Susan Buck-Morss, Hegel e Haiti, é bem convincente em seu esforço de nos mostrar, através de uma argumentação às vezes por inferência, às vezes por dedução, que a “dialética do senhor e do escravo” de Hegel tem diversos pontos de contato com as ideias e acontecimentos que levaram à Revolução Haitiana. Isto é, a filósofa se coloca ao lado de outros intérpretes da filosofia política que consideram algumas passagens fundamentais da Fenomenologia do espírito profundamente lastreadas em eventos históricos e sociais (por exemplo, a Revolução Francesa) testemunhados por Hegel e outros intelectuais europeus seus contemporâneos. O fato de a revolução dos negros haitianos – uma luta por liberdade consumada inclusive com a possibilidade de morte seja do escravo, seja do senhor – ter passado em branco para os pensadores iluministas do período não parece algo lógico ou razoável, e isso sugere para Buck-Morss que a neutralidade analítica dos filósofos às vezes não passa de uma grande impostura.

Antes de tratar da aparente cegueira de Hegel relativamente ao que à época se passava no Haiti, não obstante os acontecimentos em Saint-Domingue exemplificassem à maravilha “a dialética do senhor e do escravo” com que o filósofo trabalhava em seus escritos, Buck-Morss aborda nos discursos de outros sábios iluministas o “paradoxo entre o discurso da liberdade e a prática da escravidão”. Isto é, a pensadora critica a estranha disjunção entre a defesa da liberdade (pauta dos ideais de Revolução Francesa) por parte de pensadores como John Locke e Jean-Jacques Rousseau e ao mesmo tempo um indecoroso silêncio sobre a escravidão que acontecia na vizinhança de seus interesses intelectuais. Parece que “the milk of human kindness” (o leite da bondade humana; Shakespeare dixit) desses pensadores da liberdade e dos direitos das pessoas escasseou ou empedrou para os negros rebelados de Saint-Domingue.

A omissão dos revolucionários e pensadores europeus sobre a escravidão real que acontecia além de suas fronteiras (cujo avesso da moeda se constituiu em interesses e lucros comerciais advindos do colonialismo) se materializou nesse histórico não reconhecimento de uma revolução de escravos negros que, na prática ou de forma empírica, atualizava a ideia de liberdade universal tão sonhada por esses iluministas. Esse silenciamento algo despeitado, se podemos nos expressar assim, nos faz supor fortes determinações racistas: a recusa em ceder o protagonismo ao outro, afinal, nesse concerto, quem tocava o primeiro violino eram mãos não-brancas. Apesar da existência de ideias e discursos contrários, não só à escravidão por natureza – de que se beneficiaram, por exemplo, os povos indígenas nesse período –, mas também às demais variantes das soluções escravistas, com relação aos negros africanos, entretanto, a prática da escravidão por natureza, à primeira vista, enfrentou menos resistência da parte dos abolicionistas lato sensu abrigados sobre o guarda-chuva benfazejo do iluminismo. 

Com relação a Hegel, Buck-Morss suspeita fortemente de que “a dialética do senhor e de escravo” presente na Fenomenologia do espírito foi haurida dos episódios relativos à Revolução Haitiana. Os negros escravizados se dispuseram a travar uma “luta de vida e morte” em vista da liberdade. O risco de matar ou morrer é um dos passos da dialética hegeliana em que o escravo empenha a própria vida na perspectiva de tornar-se senhor de si e para si. A filósofa não aceita a tese de que os conceitos senhor e escravo seriam metáforas ou meras categorias aristotélicas resgatadas à tradição da filosofia política; nem que Hegel estivesse falando em termos abstratos de modo a formular uma análise que tratasse a luta por estima e liberdade em termos universalmente válidos. Os discursos dos comentaristas hegelianos deprimem interpretações mais empiristas e históricas como as de Susan Buck-Morss. 

A Revolução Haitiana parece ter aberto uma fissura no narcisismo autocentrado do iluminismo europeu e nos pressupostos convencionais da filosofia política. Negros haitianos lutando por sua liberdade e destruindo seu senhor, constituiriam a imagem histórica de conquista desse direito universal sobre o qual Hegel assentaria sua obra mais relevante, Fenomenologia do espírito. A periferia torcendo o gasnete à eloquência do centro. Isso parece impensável para as forças de defesa hegelianas. Por essa razão Buck-Morss cita Michel-Rolph, que, a propósito do silêncio de grande parte dos iluministas sobre a importância da Revolução Haitiana, diz o seguinte: “[a Revolução] entrou na história com a característica peculiar de continuar sendo impensável, mesmo enquanto acontecia”. Acrescente-se: uma Revolução protagonizada não por revolucionários europeus (brancos), porém por negros insurrectos numa colônia afastada de toda civilização e suas luzes. 

Ronald Augusto é poeta, letrista e ensaísta. Autor de, entre outros, Nem raro nem claro (Butecanis, 2015) e À Ipásia que o espera (Ogum’s Toques Negros, 2016). Dá expediente no blog http://www.poesia-pau.blogspot.com e escreve quinzenalmente no http://www.sul21.com.br/jornal/

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