Metáfora e fúria

Foto: Cristiano Prim

Por Aline Magalhães Pinto

Em abril do ano passado, no primeiro mês do que seria nossa longa temporada pandêmica, junto com livros comprados em um sebo, chegou um cartaz com uma imagem da poderosa dançarina de flamengo Carmen Amaya conjugada à citação da escritora e ativista Alice Walker “Tempos difíceis exigem danças furiosas”. Esse conjunto de imagens, a fotografia e o artefato verbal, está em circulação constante, o que tornou esse cartaz um tipo de lugar-comum, quase clichê. Mas o que trouxe esse pedaço de papel a mim naquele momento, de alguma maneira, teve um impacto, e eu deixei aquela folha de papel na mesa de trabalho. Logo depois ela foi para a parede, ainda sem moldura, e de lá, esteve me olhando desde então. Me vigiando, aquele jogo de palavras e gestos parece despertar efeitos de um movimento errático entre os sentidos do que é difícil, do que é furioso, do que pode ser aquilo que um tempo exige, e se ele exige, exige de quem? Isabelle Stengers nos oferece a possibilidade de uma via de resposta menos clichê. Em 2009, a autora belga escreveu, sob o sugestivo título O tempo das catástrofes – resistir à barbárie que se aproxima, um longo ensaio que tem como ponto de partida a mudança climática global e a possibilidade aberta pelo movimento europeu de resistência aos organismos geneticamente modificados (OGM), para ousar pensar um futuro. Explorando a contradição entre um discurso que convida os consumidores a se tornarem conscientes do caráter egoísta e irresponsável de seu consumo e um modo de produção socioeconômico que é visceralmente composto pela perspectiva de crescimento, competição e progresso, a autora se dirige àqueles que se sentem paralisados pelo sentimento de desmedida entre o que podem e o que seria preciso fazer por um mundo que parece determinado por múltiplas e convulsivas configurações da barbárie. Detendo-se com muita propriedade nos impasses entre produção cientifica e a política econômica contemporânea, Stengers visa produzir ou despertar um espaço de intervenção que, se subtraindo à demanda de oferecer respostas para que “as coisas melhorem”, possa se dedicar ao processo de criação de um futuro que não seja bárbaro. Consideremos suas ideias utópicas ou ultrarrealistas: seu discurso tem como uma de suas premissas o argumento de que “estamos, nessa nova época, diante não apenas de uma natureza que deve ser protegida contra dos danos causados pelos homens, mas também de uma natureza capaz de incomodar, de uma vez por todas, nossos saberes e nossas vidas” ( p. 11). Essa modificação operada no estatuto da natureza não é, do ponto de vista discursivo e teórico, banal. Especialmente porque, para desenvolvê-la, a autora recorre a dois procedimentos: primeiro, ela diagnóstica a insuficiência da politização crítica que supostamente transcende a política e atinge o progresso das ciências e das técnicas. Isso é, diante do fato de que a “Monsanto se beneficia diretamente com proliferação de ‘superervas daninhas’ (superweeds) que se tornaram resistentes a seu herbicida Roundup” (p. 33), a crítica ao progresso científico denota-se insuficiente. Sem que haja nisso uma novidade, o importante é assinalar que, na argumentação de Stengers, a mobilização teórica e política que, no pós-guerra, dedicou-se à crítica das ideias e ideais ligados à expansão, progresso, evolução, futuro, autenticidade, coerência, verdade, mostra-se ineficiente em relação ao que a reorganização dos parâmetros de acumulação e de reprodução ampliada do capital significa: a emergência de uma crise ecológica sem precedentes. E, o que seria ainda mais grave: a argumentação ao redor da exigência de “uma ruptura radical com a ideologia do progresso linear e com o paradigma tecnológicoe econômico da civilização industrial moderna”, tal como M. Lowy aponta em seu Ecologia e Socialismo, já se tornou impotente. É certo que a máxima benjaminiana que liga progresso e catástrofe continua a operar. Todavia, a crítica politizada ao progresso, diz Stengers, responde apenas parcialmente à questão do futuro. Tem lugar, então, o segundo procedimento a que Stengers recorre para deslocar o estatuto da natureza. Partindo da ideia de que crítica ao progresso (e ao tempo linear) é insuficiente e “para marcar o caráter inédito dessa situação, da forma como ela confunde nossas perspectivas, decidi dar um nome para o que está acontecendo” (p. 35). Essa nomeação procura configurar uma situação que não foi desejada: uma intrusão que não é uma ação preparada por um sujeito coletivo ou individual. Stengers quer nomear Gaia: “Nomear Gaia e caracterizar como intrusão dela os desastres que se anunciam, é crucial salientar, depende de uma operação pragmática. Nomear não é dizer a verdade, e sim atribuir àquela se nomeia o poder de nos fazer sentir e pensar no que o nome suscita. No caso presente, trata-se de resistir à tentação de reduzir a um simples problema o que constitui um acontecimento que nos atormenta. Mas também de fazer existir a diferença entre a questão imposta e a resposta a ser criada. Nomear Gaia como a ‘que faz a intrusão’ é também caracterizá-la como cega aos danos que provoca, à maneira de tudo o que é intrusivo. Por isso a resposta a ser criada não é uma resposta à gaia e sim uma resposta ao que provocou sua intrusão quanto às consequências dessa intrusão.” (p. 37).

Bruno Latour, a quem a autora agradece na introdução do livro, pouco tempo depois da publicação de No tempo das catástrofes, dedicou-se, em uma série de conferências, à “hipótese de Gaia” – que foi estabelecida como teoria pelo cientista James Lovelock nos anos 1970 – , investigando Gaia como uma noção para pensar os desafios ecológicos fora da dicotomia natureza/cultura. A autora compartilha, portanto, o território das discussões contemporâneas sobre o antropoceno. Ao afirmar a nomeação como uma operação pragmática, o texto de Stengers convoca a dimensão simbólica da linguagem e mais especificamente promove, simbolicamente, uma transferência metafórica do sensível ao inteligível. Ao não encontrar disponível um vocabulário adequado à apresentação dos conteúdos abstratos que são gestados pela atividade de pensar o choque do presente e presença de uma perspectiva angustiante de futuro, a autora precisa tomar a liberdade de dar um nome à experiência, evocando uma palavra com a qual designa um conteúdo que não se está disponível na superfície ou aparência do vivido. Gaia é, portanto, engendrada pela aptidão simbólica da linguagem em produzir uma semelhança não-sensível que constitui as construções metafóricas: “Gaia é agora, mais do que nunca, a bem nomeada, pois se no passado foi honrada, por ser temida, aquela a quem os camponeses se dirigiam pois sabiam que os homens dependem de algo maior do que eles, de algo que os tolere, mas de cuja tolerância não se deve abusar. Ela era anterior ao culto do amor materno que tudo perdoa. Uma mãe, talvez, mas irascível, a quem não se deve ofender. (…) Ofendida, Gaia é indiferente à pergunta “quem é responsável” e não age como justiceira (…). Gaia é o nome de uma forma inédita ou então esquecida de transcendência: uma transcendência desprovida as altas qualidades que permitiriam invoca-la como árbitro, garantia ou recurso, um suscetível agenciamento de forças indiferentes aos nossos pensamentos e aos nossos projetos.” (p.38-43)

Nesse bem-sucedido tratamento metafórico, em que vemos claramente o vestígio do poder arcaico de produzir assimilações, para uma dinamicidade e potência tão implacáveis quanto o devir monstruoso que por ela se anuncia, Stengers, a meu ver, está a despertar efeitos do mesmo movimento entre os sentidos do que é difícil, do que é furioso, do que pode ser a exigência de um tempo de que comecei a comentar neste pequeno texto. O que chamei de errático talvez agora possa ser melhor definido como diluição da separação entre sujeito e objeto numa dinâmica de produção de semelhanças. Mas, ao nos fazer pensar sobre o que é difícil, furioso, sobre o que o tempo exige e de quem, a imagem de Gaia nos lembra o fato de que dançar, com fúria e alegria, como Nietzsche propôs, precisa ser posto de frente a algo que parece saliente: a insuficiência ou esgotamento da crítica do progresso e a seu tempo acelerado, linear. O problema do nosso tempo pode ser, justamente, aquilo que a imagem de Gaia configura enquanto provação: a possibilidade de estarmos diante de um algo que não nos exige nada e por isso mesmo torna-se insensível a nossa fúria e a nossas dificuldades. E talvez, se a barbárie não for mesmo inelutável, despertos por uma provocativa metáfora que sinaliza para uma força que pode nos aniquilar enquanto espécie, ao mesmo tempo em que é indiferente à vaidosa agência humana, em função de e contra os niilismos, possamos repensar os vínculos entre ação e subjetividade, consciência e natureza.

Aline Magalhães Pinto  é professora da área de Literatura Comparada e Teoria Literária e do Programa de Pós-graduação em Estudos Literários da UFMG

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