Diálogo imaginário entre Nietzsche e Foucault

Recorte da edição de O Globo de 26 de junho de 1984

Por Heron Moura

Nietzsche e Foucault se encontraram numa tarde fria e chuvosa, em uma sala ampla e despida. Estava escuro e uma luminária de prata iluminava apenas as faces concentradas. 

Nietzsche falou: Você é meu dileto discípulo, quase um filho. Não tive filhos nem mulher, mas desejei engendrar uma nova raça. Você, como ninguém, tentou eliminar a marretadas  o sólido edifício do humanismo. Você caçou a sangue frio os fantasmas da liberdade e do liberalismo. Você mostrou que a democracia é outra manifestação do terror. O humanismo é a pior religião. Quando penso nas tuas conquistas, sinto que tive um filho e que a minha vida não foi o que de fato foi: solidão e doença.

Foucault: Nunca quis ter um pai.

Nietzsche: Eu sei, somos da mesma espécie. Negamos tudo que possa afetar nosso orgulho. Não sei se há afeto no meu orgulho, mas sinto que és meu filho.

Foucault:  A natureza nos prega cada peça… Eu sou, em parte, um eco controlado do que você disse. Mas um eco é evasivo, não tem sangue. Um eco não tem corpo. É apenas discurso.

Nietzsche: Você substituiu algumas palavras minhas por outras suas, como um filho que não quer parecer demasiadamente com o pai. Eu falava em valor, você falou em discurso. Eu falava na morte do homem dominado, você falava na morte do autor. A principal diferença entre nós é que eu abandonei a vida acadêmica e você atingiu o ápice dela. Eu virei andarilho e você virou conferencista. Como um bom filho, realizou o que o pai não fora capaz de alcançar. Mas eu não sou sentimental, como você bem sabe. Os sentimentos são apenas uma superfície, uma crosta. Por trás dos sentimentos, há o que deveras importa: a vontade de potência, o conjunto firme de nossas estimativas de valores. Vamos deixar os sentimentos para os fracos, os cristãos e as mulheres. O meu mandamento supremo sempre foi evitar a degeneração da espécie em sub-humanos dessa laia. Especialmente, tentei evitar a minha própria degeneração.

Foucault: Se a sinceridade é um sentimento, você está sendo sentimental agora.

Nietzsche: Sentimentos são frutos da moral, essa gosma cultivada pelos derrotados. Só quem é fraco precisa evocar a moralidade, para evadir-se de si mesmo, para fugir de sua mediocridade, fundindo-a em preceitos universais.  O homem fraco é mole e gosmento como um caramujo. Precisa da carapaça para parecer forte. A moralidade e seus valores amalgamados de respeito e igualdade, toda essa verborragia cristã e socialista, tudo isso não passa da carapaça do caramujo. Você, como eu, odeia todo sentimentalismo, todo discurso baseado no humanismo e na bondade. O remédio radical do sentimento só é indispensável para os degenerados. Adoro aquele debate entre você e Chomsky (vejo sempre vídeos no Youtube). Você ataca Chomsky, esse verme humanista, esse degenerado que defende a dignidade de cada ser humano. O sustentáculo da argumentação dele é a ética. Mas a ética é apenas um novo nome para a antiga baba salivada por padres e poetas românticos.

Foucault: O poder está em todos os lugares. Pensando bem, este nosso diálogo nos deixa presos.

Nietzsche: Amo essa sua capacidade de mandar tudo às favas, menos você mesmo. Eu mostrei que não há política, só há vontade de poder e instinto. Todo debate é inútil, o que importa é a imposição da força, em nome da vida. A vida não aceita debate. Você foi demais naquela entrevista em que defendeu a pedofilia! Lutar contra a natureza é provocar a própria destruição. Um leão não vai argumentar com uma hiena.  E o que você faz, meu querido Foucault? Você introduz na relação de poder, que eu já havia proposto, dois polos marcadamente opostos. Se há quem domina, há quem é dominado. Se há o leão, há a hiena. Com isso, você deixou na sombra o que eu propus mais diretamente: a pura contemplação do poder e da força, esse êxtase da conquista de si mesmo, que se transmuta na imposição dos próprios valores aos outros e até à natureza. Você abriu uma brecha para a imaginação de que o dominado pudesse ser identificado com o bem, e o dominador com o mal, como nos impérios. Quem subjuga é mau, quem é subjugado é bom. Mas eu sempre fui a favor dos dominadores e dos criadores de impérios! Você ludibriou os humanistas mais dóceis e os acadêmicos mais suscetíveis.  Alguns de seus seguidores chegaram babando na gravata, enxergando na pura e cristalina relação de poder os velhos valores do cristianismo, do socialismo e do liberalismo. Esses degenerados pensaram que na tua filosofia estava embutida uma potencial liberação dos dominados. Que tolos! Você sempre deixou claro que nunca acreditou em valores morais e no valor do sujeito. Você jogou na lata do lixo toda essa insuportável algaravia do debate institucionalizado e da argumentação entre iguais! A argumentação entre iguais é simplesmente impossível, pois o que existe, em última instância, é uma relação desigual de poder. Você deu um golpe de morte na moral e na igualdade. Como pode haver liberação, se a única coisa real é o poder? Os dominados são um mero reflexo do poder. O poder (que está em toda parte) produz dominados em abundância. Eu nunca dei a mínima para eles. Se não há moral e verdade, a defesa dos dominados não faz o menor sentido.

Foucault: Eu nunca quis indicar o que se podia inferir de minhas análises do poder.

Nietzsche: Justamente. Você definiu a coerção como o único horizonte humano. Aliás, o próprio horizonte é também uma coerção. O sol tem de cair no horizonte. Como se as hienas, submetidas ao sistema de poder do leão, também não fossem coagidas, por sua natureza, a um instinto de domínio. Liberem as hienas, e elas te devorarão. 

Foucault: Você gosta de falar por meio de fábulas e alegorias. Parece La Fontaine.

Nietzsche: Sem democracia, ética e afeto, não há liberação. Você mostrou que a democracia e a ética são invenções do poder disciplinador da modernidade. O afeto, bem, não sabemos o que é isso. O afeto é um assunto para as criadas.

Foucault: Afeto… A minha vida privada não interessa a ninguém, mesmo aqui no além-vida.

Nietzsche: Claro, se a vida pública é pura manifestação de poder, então o que te resta, meu dileto epígono, é a vida privada. O que é transcendental para nós, os sábios e fortes, é fugir tanto da bondade embrutecida dos cristãos quanto do Estado laico que tenta governar as nossas vidas. Socialistas e liberais são idênticos nesse ponto: querem instaurar a felicidade do maior número de pessoas. Eles que guardem para si essa felicidade morna. Nós sempre teremos a vida privada. Nós sempre seremos fortes.

Foucault: Observe que eliminei de meu discurso essas categorias: os fortes, os fracos.

Nietzsche: Malandrinho! Tenho de tirar o chapéu. Eu era bem mais direto. Eu amo aquela parte na qual dizes que uma pandemia é o melhor dos mundos para um sistema de controle. Um regime disciplinar da vida prospera quando ela está supostamente sob a ameaça de germes invisíveis. Ordenar, controlar, interditar: eis os verbos preferidos do Estado na gestão de uma pandemia. A política se manifesta, nua, naquilo que ela realmente é: força e coerção. Tem esse mediterrâneo aí, Giorgio Agamben, que representa bem o que tu pensas. Ele foi contra lockdowns, foi contra a ditadura dos homens de branco…  Foste um profeta, Foucault, previste a coerção e a biopolítica nos tempos do coronavírus!  O lockdown é como a moral: deixa o homem enfezado, cheio de ódio contra os impulsos da vida; o homem se torna doente, para supostamente escapar da doença.

Foucault ficou em silêncio. Despediram-se. A luminária não iluminava nenhum rosto mais. A vida prosseguiu no além-vida.

Heron Moura é escritor e professor da UFSC. Publicou O respirante (7Letras, 2006) e Uma Breve História da Linguística (Vozes, 2018), entre outros. E-mail: heronides@uol.com.br

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