Não Verás País Nenhum: apocalipses sul-americanos

Foto: Ayrton Cruz

Por Dorva Rezende

Há muitas maneiras de se destruir um país, acabar com uma população, transformar tudo num deserto ou num estacionamento, sem vida, inerte. Se um suspeito juiz de primeira instância é capaz de dizimar centenas de milhares de empregos apenas para forçar a saída de um grupo político do poder, o que não faria um mitômano presidente em sua ensandecida missão para disseminar propositadamente um vírus em seu rebanho? E se, no final, sobrarem uns poucos desvalidos, que tipo de relatos do apocalipse a que nos submetemos, placidamente, eles deixariam?.

No conto A Espingarda, do seu segundo livro de narrativas de ficção científica O Homem que Adivinhava (1966), André Carneiro narra a impossibilidade de conciliação no que restou de um país cindido quando, após caminhar vários e vários dias se esgueirando entre carros abandonados, sentindo sob a máscara de pano improvisada o cheiro dos cadáveres em decomposição, escapando da chuva tóxica que provocou a contaminação da população e procurando alimentos enlatados, cigarros e água potável nas ruínas de supermercados e mercearias, um homem encontra, por fim, um sinal de vida num vilarejo distante. Ao se aproximar, descobre que o único sobrevivente, como ele, está protegido e armado, em uma espécie de fortaleza de muros altos e portões firmes, e nem um pouco disposto a conversar.

Paulista de Atibaia que testemunhou a chegada de milhares de imigrantes nordestinos à grande metrópole a partir dos anos 1950, com a implantação da indústria automotiva e a expansão da construção civil, e a consequente xenofobia dos quatrocentões e dos não quatrocentões já estabelecidos na pauliceia desvairada, Carneiro inverte o tabuleiro ao fazer com que o homem da fortaleza tema aquele que veio do sul trazendo a peste. O confronto, inevitável, ganha ares de duelo ao pôr do sol quando o caminhante também encontra uma espingarda e cartuchos de bala no armário de uma casa abandonada. Na impossibilidade do diálogo, as armas é que falam.

Em três tempos, na sua trilogia distópica Zero (1975), Não Verás País Nenhum (1981) e Desta Terra Nada Vai Sobrar, A Não Ser O Vento Que Sopra Sobre Ela (2018), Ignácio de Loyola Brandão refletiu sobre o paulatino processo de extinção do Brasil como sociedade. Sobre como, da ditadura militar imposta pós-golpe de 1964 à subditadura militar consentida pós-golpe de 2016, o finado brasileiro cordial deu lugar ao brasileiro odiento, rancoroso. Como todo bom ficcionista, ao exacerbar a realidade da época, Brandão antecipou muitas de nossas mazelas atuais.

Construído a partir de matérias censuradas do jornal Última Hora, onde trabalhava como secretário gráfico, no começo dos anos 1970, Zero foi publicado originalmente na Itália, em 1974, com tradução de Antonio Tabucchi, censurado no Brasil em 1976 e liberado somente em 1979. Entrecortada por fragmentos dessas notícias, a história narra a saga de José, um homem comum, para conseguir a casa que tanto sonha a mulher, Rosa, num país sob uma ditadura militar-religiosa que tudo controla e tudo vigia.

Premonitório, Não Verás País Nenhum traz um personagem que é um capitão, ligado às milícias, que carrega uma bolsa com parte dos intestinos atada ao corpo. A Amazônia virou um deserto e as pessoas, em São Paulo, precisam reciclar a urina para beber. O protagonista, Souza, um homem com um furo na mão, tenta se mover, e sobreviver, no Esquema, a força que controla quem vai e quem vem e que reescreve os fatos e a história à sua maneira. 

Em Desta Terra…, Brandão conta o país a partir do turbilhão da queda no abismo. Não há governo, não há escolas, não há cultura, não há conhecimento, somente ignorância, intolerância, fanatismo, ódio gratuito e academias fitness. Tudo é uma versão piorada do que já somos hoje, enquanto esperamos dentro do carro, num congestionamento, vendo um trem passar levando as pilhas de mortos. 

Traduzido para o inglês por ninguém menos que Ursula K. LeGuin, o livro Kalpa Imperial, de Angélica Gorodischer, foi publicado poucos meses antes do término da última, e a mais sangrenta e criminosa, ditadura militar na Argentina, em 1983. É composto por 11 fragmentos, relatos da história do Império Mais Vasto que Nunca Existiu, que foi destruído e reconstruído infinitas vezes. 

Como se fosse uma tapeçaria, Kalpa Imperial une ficção científica e fantasia, contos de fadas, tradições orais e comentários políticos para narrar como mendigos se tornaram imperadores, como sociedades democráticas cedem à tirania, como a história se faz de lendas e estórias. Aos 92 anos, Gorodischer permanece, inexplicavelmente, ainda não traduzida no Brasil. 

Diferente de dona Angélica, que tem uma extensa produção literária (Trafalgar, de 1975, um livro de contos de viagens interplanetárias que se lê como se toma um café conversando em um bar, é sensacional), a obra apocalíptica de Rafael Pinedo (1954-2006) se resume ao romance Plop, Prêmio Casa de las América de 2002, às noveletas Frío e Subte, e ao pequeno relato em forma de verso intitulado El Laberinto. Aos 18 anos, Pinedo queimou todos os contos que havia escrito na infância e na adolescência e foi estudar computação na Faculdade de Ciências Exatas e Naturais da Universidade de Buenos Aires. Trabalhando como programador, só voltou a escrever aos 40 anos. 

Plop foi o som que uma criança fez ao nascer e cair no barro, aos pés da mãe que estava atada a uma carroça, empurrando-a no meio do lodo, enquanto a tribo a qual pertencia se deslocava de um lugar a outro na planície deserta, entre ruínas de cidades e vilas há muito esquecidas, algumas habitadas por tribos rivais, outras fechadas por bosques que abrigam ferozes descendentes de cães e gatos domésticos que também servem de alimento para os mais corajosos famintos. No livro, Pinedo narra a ascensão e queda do menino que desde que se entende por gente precisou fazer de tudo para sobreviver. O seu destino, um buraco, pode muito bem ser o mesmo em que nos metemos, argentinos e brasileiros, em muitos momentos de nossa história.

Em Frío, uma jovem freira é abandonada em um convento quando todos partiram para escapar da temperatura em queda vertiginosa sobre a cidade. Como companhia, tinha só os ratos e as baratas e um grande felino, um puma à caça com um faro apurado. E em Subte, uma mulher grávida de oito meses se perde de seu grupo e, para fugir dos lobos que a perseguem,  é obrigada a se esconder na absoluta escuridão do metrô, onde conta apenas com os demais sentidos para tentar sobreviver. 

Ante essas histórias de apocalipses sul-americanos, vamos tateando no escuro como a mulher acima, sabendo apenas que as informações de que dispomos podem não ser suficientes para evitar a vida no limite que se nos avizinha.

Dorva Rezende é jornalista, mestre em Letras pela UFSC (2007).

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