A política da montação: Entrevista com Arthur Gomes

Montagem de Arthur Gomes sobre foto da Drag Suzaninha.

Por Márcio Markendorf

Figura reconhecida no cenário artístico-cultural brasileiro por causa da Drag Suzaninha, o ator, performer e arte-educador Arthur Gomes dá provas de que a montação é uma prática de artivismo. Não é à toa que também participe como Conselheiro de Cultura LGBTQIA+ no Conselho Municipal de Política Cultural de Florianópolis. Arthur Gomes é, além disso, pesquisador da Pós-Graduação em Literatura do Centro de Comunicação e Expressão da UFSC. Seu tema de estudo são as convergências entre gênero/sexualidade, velhice e arte drag. Como agente cultural, atua na comunidade LGBTQIA+ desde 2014 e é sócio-produtor da BAPHO Cultural. Recentemente, em junho de 2021, o nome de Arthur Gomes, juntamente com os de outros participantes, esteve envolvido na polêmica censura da Prefeitura Municipal de Itajaí a um projeto de temática LGBTQIA+ voltado ao público adulto. O artista, em decorrência de fake news e propagação de desinformação, acabou por sofrer ataques nas redes sociais. Esse e outros assuntos relacionados à militância e à arte de Arthur Gomes são abordados na entrevista a seguir.

Subtrópicos: Educação, cultura e pautas LGBTQIA+ fazem parte de sua trajetória artística e política. O que você destacaria da sua história artivista?

Arthur: Existem três momentos importantes no meu processo como artivista. O primeiro deles é a chegada a Florianópolis para cursar Licenciatura em Teatro na Universidade do Estado de Santa Catarina, em 2014. Sou natural de Chapecó, oeste catarinense, e ainda que minha atividade artística já fosse constante na minha cidade de origem, ter vindo para Florianópolis me apresentou a um mundo de possibilidades relacionadas ao meu existir como figura LGBTQIA+. 

Foi em 2014 que me iniciei na montação em drag, criando a personagem montada Suzaninha, em função de um convite para atuar em um espetáculo de teatro. Por mais que, desde os tempos em que morava em Chapecó, eu já tivesse a experiência da montação na estética da palhaçaria (com a criação de Barril, meu palhaço), foi a arte drag que trouxe toda a representatividade e discussão de gênero e sexualidade para meu corpo. A arte drag é uma ação de resistência de corpos dissidentes por meio da arte, e ser uma figura montada é reconhecer a responsabilidade social que a montação carrega. 

O segundo momento importante de minha trajetória foi a criação da produtora BAPHO Cultural, em 2017. Juntamente com Thomas Dadam, meu companheiro de vida e de luta, fiz viagens para outras capitais e pesquisei o cenário cultural LGBTQIA+ de outros estados. Nesse processo, identificamos a necessidade de gerar empregos LGBTQIA+, de abordar pautas de gênero e sexualidade e de movimentar na cidade a formação de plateia para os nossos temas. 

Florianópolis é um lugar que por muito tempo foi vendido como capital gay do Brasil, o que não é verdade. Trabalhando na produtora, constatamos o tamanho da urgência de abordar temas LGBTQIA+, mas veficamos principalmente como era necessário transformar o cenário cultural na cidade. É na marginalidade e nos guetos que a produtora se constrói, realizando diversos eventos, que vão de feiras de artesanato com produtos de pessoas LGBTQIA+ até festivais de cinema sobre temas ligados a sexualidade e gênero. A BAPHO é hoje uma das principais produtoras LGBTQIA+ do sul do país. 

Já o terceiro e último momento marcante de minha trajetória consiste na construção do Fórum Setorial de Cultura LGBTQIA+ de Florianópolis. Transitando pela vida cultural da cidade com nosso fazer artístico, compreendemos a necessidade de nos vermos representadas como fazedoras de cultura. No final de 2019, durante a VIII Conferência Municipal de Cultura de Florianópolis, apresentamos uma solicitação de moção de apoio das(os) Conselheiras de Cultura do Município para a criação da Setorial, que foi recebida e acatada pelas representações presentes. 

Em 2020, demos início ao mapeamento das trabalhadoras e trabalhadores da cultura LGBTQIA+ de Florianópolis, que já identificou quase 120 pessoas. No mesmo ano, ainda sem a oficialização da Setorial, ocupamos a Conferência Estadual de Cultura, centrada no debate sobre a Lei Aldir Blanc, e conseguimos que se lançassem os Editais Emergenciais da inserção de Cultura LGBTQIA+. No final de fevereiro de 2021 oficializamos a criação da Setorial por meio da Assembléia Constituinte. Por fim, em março, conquistamos uma cadeira no Conselho Municipal de Política Cultural de Florianópolis, sendo eu a representação da Setorial no Conselho. 

A Drag Suzaninha no centro de Florianópolis. Foto: Ayrton Cruz

Subtrópicos:  Nos últimos anos, questões de gênero e sexualidade tornaram-se ponta de lança de plataformas políticas. Como você avalia esse crescimento no discurso político?

Arthur: Cada vez mais, as discussões de gênero e sexualidade estão se emancipando, principalmente graças à bravura dos movimentos LGBTQIA+, feministas e de negras e negros. Os espaços políticos estão sendo ocupados por corpos dissidentes, seja em âmbito municipal, seja em estadual, seja em federal. Em Florianópolis, por exemplo, aconteceu pela primeira vez de uma mulher lésbica ser eleita para ocupar um cargo na Câmara de Vereadores. 

Ativistas como Carla Ayres (PT) em Florianópolis-SC, Erika Hilton (PSOL) em São Paulo-SP, Filipa Brunelli (PT) em Araraquara-SP, Duda Salabert (PDT) em Belo Horizonte-MG, Benny Briolly (PSOL) em Niterói-RJ, Linda Brasil (PSOL) em Aracaju-SE e Lins Roballo (PT) em São Borja-RS foram algumas das vereadoras eleitas para mandatos em diversos cantos do Brasil. A ação delas tem sido crucial para a sobrevivência e a garantia direitos básicos de todas nós.

Um dos reflexos do fato de essas pessoas terem sido eleitas pode ser visto no processo de organização das pessoas LGBTQIA+, na maioria dos casos graças à ação direta do movimento de travestis e transsexuais. Isso não decorre de mudanças em nossa sociedade (por mais que tais mudanças sejam uma expectativa de todes) nem significa que os altos índices de violência contra nossos corpos estejam sendo reduzidos. O que está acontecendo é, na verdade, puro fruto do trabalho de base e da força crescente da ocupação dos espaços políticos por corpos dissidentes.

“A ideologia de gênero é um sistema criado pela norma para dizimar vivências dissidentes. “

Subtrópicos:  Do que trata a ideologia de gênero?

Arthur: Ideologia de gênero não existe! O termo é um desserviço aos estudos de gênero e sexualidade, bem como aos movimentos sociais que vêm combater as violências de gênero e a política heterocisnormativa que legitima a morte de pessoas LGBTQIA+. 

Relacionar os debates referentes a gênero e sexualidade com ideologia deslegitima pesquisas e estudos aprofundados que visam estabelecer a reconstrução de uma sociedade ainda tão avessa a pessoas que rompam com o sistema sexo-gênero construído pela heterossexualidade cisgênera. 

Por meio da religião, do Estado, da família heterociscentrada e da medicina, esse discurso foi apropriado e veio à tona com a onda fascista que inundou o país a partir do golpe contra a então presidenta Dilma Rousseff. 

 O medo da centralidade heterocisgênera é o de que corpos marginais venham a se destacar e ocupar o centro. Mas o objetivo de toda abordagem do gênero e sexualidade é estabelecer o direito de cada pessoa, independentemente de sua vivência, a existir e sobreviver dignamente.

A ideologia de gênero é um sistema criado pela norma para dizimar vivências dissidentes. 

Subtrópicos:  Você acredita ser necessário o ensino sobre gênero e sexualidade em escolas, universidades e espaços públicos?

Arthur: Com toda certeza. Os debates sobre gênero e sexualidade que visam estabelecer o respeito e o direito à vida são importantes para a redução das violências. Santa Catarina, por exemplo, é o estado com o maior número de casamentos infantis. Esse dado é de 2019, e o poder público cada vez mais censura a temática abertamente.

Debater gênero e sexualidade não diz respeito apenas à comunidade LGBTQIA+, mas a toda a sociedade. Volto aos dados de nosso estado: em Santa Catarina, os altos números de feminicídios são um retrato a ser constantemente lembrado. Se ainda os crimes bárbaros acontecem, é dever do poder público exercer sua função de corrigir essa situação.

São inúmeros os benefícios decorrentes desses debates e decisões para a população. Afinal, somos construídos pelo gênero e exercemos funções sociais a partir disso. Problematizar, debater, discutir e reparar através da educação pode tirar o Brasil da lista dos países que, por exemplo, mais matam pessoas trans e travestis no mundo. 

Subtrópicos:   Em 2018 houve a polêmica censura à exposição do Santander Cultural, Queermuseu: cartografias da diferença na arte brasileira. De que diferença tratava a exposição e por que incomodou tanto?

Arthur: A exposição Queermuseu, aberta ao público em setembro de 2017 na cidade de Porto Alegre, trouxe para o cenário cultural brasileiro diferentes artistas que abordavam a sexualidade e o gênero de maneira didática.

O que incomodou parte da sociedade heterocisnormativa foi a sequência de obras de Bia Leite chamada Criança Viada, assim como o trabalho de Adriana Varejão Cena do Interior II. Ambas as artistas apresentavam fatos de nossa realidade social tanto sobre infâncias dissidentes como sobre atos praticados pela norma. 

As temáticas incomodaram pelo simples fato de que são reais. A heterocisnorma esconde as infâncias dissidentes, negligencia o fato de que crianças LGBTQIA+ existem, bem como acoberta os atos absurdos praticados pela heterocisnorma, como estupro, zoofilia, e tantos outros. 

O que não surpreende é o fato de que a maioria das críticas veio de pessoas que não tiveram acesso à exposição e se limitaram a compartilhar em redes sociais notícias falsas e matérias absurdas que deslegitimam a importância de debater, por meio da arte, temas ligados a gênero e sexualidade.

Subtrópicos:  Recentemente, o projeto idealizado por Daniel Olivetto, Criança Viada Show, do qual você fazia parte, foi censurado em Itajaí. Explique o que houve.

“O medo da heterocisnorma é que as discussões de gênero e sexualidade acessem as infâncias e travem as engrenagens do CIStema. “

Arthur: Uma das iniciativas do projeto Ações para Reexistir é um podcast e videocast chamado Criança Viada Show. No evento, homens gays adultos falam de suas infâncias dissidentes e de suas trajetórias artísticas. 

O lançamento do projeto ocorreria no dia 15 de maio de 2021, com uma live transmitida pelo nosso canal no Youtube. O evento recebeu o nome de Roda Bixa, uma alusão ao programa Roda Viva, transmitido pela TV Cultura. 

O projeto sofreu censura por parte de vereadores de extrema-direita da cidade de Itajaí. legitimados pelo prefeito do município. Eles alegavam estar protegendo as crianças que o projeto supostamente atacava. 

O projeto foi censurado, e o discurso de ódio se espalhou pela internet. O projeto não foi lançado até o momento, mas os ataques vieram mesmo assim e se deram em decorrência do nome que a iniciativa carrega. O medo da heterocisnorma é que as discussões de gênero e sexualidade acessem as infâncias e travem as engrenagens do CIStema. 

Participar desse projeto foi algo muito importante, principalmente para resgatar o lugar da minha criança viada. Ter sido uma criança viada no oeste catarinense, fruto de uma expectativa heterossocial, trouxe à baila diversas questões que hoje consigo abordar com meu trabalho artístico.

O lugar da expectativa imposto a corpos dissidentes pela heterocisnorma reduz nossa qualidade de vida. Falar sobre infância viada é resgatar um corpo desacreditado e validar o fato de que, sim, crianças estão inseridas no sistema sexo-gênero. 

Subtrópicos: A que você atribui a onda de conservadorismo na política, responsável muitas vezes por atos de repressão, controle de informação e até manipulação dos discursos?

Arthur: O problema que vejo é o sistema heterocisnormativo. Os espaços políticos institucionalizados estão nas mãos de homens, cisgêneros e heterossexuais. Além disso, a bancada evangélica está cada vez mais presente no cenário político.

Esse é o ponto. A representação do povo faz recortes específicos para beneficiar apenas uma camada da população. Cada vez mais, nós, pessoas LGBTQIA+, temos ocupado os espaços políticos, como dito anteriormente. 

Ainda que elejamos as nossas representantes, elas podem acabar silenciadas, como aconteceu à vereadora Marielle Franco.

Uma andorinha só não faz verão. Precisamos ocupar, como figuras LGBTQIA+, espaços cada vez mais amplos de construção das políticas públicas. Não somos minoria na sociedade, somos uma parcela significativa da população. 

Enquanto a heterocisnorma viril for agente central da produção das políticas públicas, as vivências dissidentes continuarão a ter que se fortalecer a partir das margens, do movimento social e das poucas figuras eleitas para ocupar cargos políticos. 

Subtrópicos:   Que significado toma para você a palavra “reexistência” neste cenário de ataques à diferença?

Arthur: Reexistir é entender que não estamos sozinhas. Diante de todas as violências e retrocessos que temos vivido, a comunidade LGBTQIA+, a resistência feminista e a comunidade negra unem-se para combater o inimigo em comum. 

Estamos fortalecendo cada vez mais um senso de união para nos reconstruir diante da dor. O Brasil é um país gigantesco, e as vivências dissidentes ocupam-no de norte a sul. 

Reexistir é um ato político. Reexistimos porque sabemos que estamos do lado certo da história. 

Marcio Markendorf é professor, pesquisador e escritor, autor de Soy loca, Lorca, feito um chien no chão (Urutau, 2019).

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