Amores expressos

Foto: Ayrton Cruz

Por Demétrio Panarotto

Nos filmes do cineasta honconguês Wong Kar Wai, a solidão é verbo. A sensação que temos é a de que cada personagem pode conjugá-la, dando ênfase, claro, se me permitirem o exagero, aos pronomes bem marcados, como se ela, a solidão, pertencesse à coletividade e ao mesmo tempo pudesse ser consumida individualmente. É, nas mesmas proporções, do espectador mas também minha e tua.

Talvez isso se deva à brutalidade com a qual o que já foi uma vila de pescadores rapidamente se transformou em metrópole. Vejamos: Hong Kong, território autônomo, têm, aproximadamente, 7,5 milhões de habitantes espalhados por uma área total de 1,1 mil km² (dos quais 50 km² são ocupados por água). Comparem-se esses números aos de Florianópolis, de onde escrevo: aqui vivem pouco mais de 500 mil pessoas em um território de 675 km², o que equivale a cerca de metade da superfície de Hong Kong. Para que se tenha uma ideia do sentimento de asfixia que explode no rosto dos personagens de Wong, é como se se enfiasse (por favor não me levem a mal — afinal, isto é apenas um exercício de imaginação) a população de Santa Catarina em um espaço um pouco maior, não muito, do que o da cidade de Florianópolis. Amontoados uns sobre os outros, os honcongueses habitam o sonho coletivo do capital, sob a égide da tríade cimento-plástico-imagem.  É essa a espécie de solidão que movimenta os filmes de Wong.

Amores Expressos, de 1994, o título que especificamente abordo neste ensaio, divide-se em duas partes independentes mas também complementares. Entre as curiosidades que ajudam a engrossar o caldo da análise da obra, está o fato de que ela foi rodada no curto intervalo entre Cinzas do Paraíso, de 1994, e Anjos Caídos, de 1995, o que significa dizer que os ingredientes que entram na confecção de Amores Expressos trazem a marca do tema retratado no filme, isto é, formam o que poderíamos chamar de um expresso de filmagem e de montagem. 

Acredito que se possa resumir a primeira parte de Amores Expressos na linda metáfora proporcionada pelo fetiche de um dos personagem por latas de abacaxi em calda preferencialmente com as datas de validade bem próximas do vencimento. Em meio às suas várias tentativas frustradas de encontrar uma companheira com quem passar a noite — feitas de um orelhão, depois de buscas exaustivas por nomes em um caderninho de contatos — , a presença dos enlatados reforça a ideia da efemeridade contemporânea.

O personagem retorna de uma loja de conveniência para casa com algumas latas do doce, come-os em grande quantidade e acaba tendo uma dor de barriga: o amor expresso também é indigesto. Sobra-lhe apenas a vontade de jogar o mais rápido possível as latas — quer dizer, as embalagens, com seu excesso de cores, propaganda e publicidade — na lixeira mais próxima: o amor contemporâneo também produz lixo. Depois que se rompeu o lacre, a sugestão muitas vezes explícita no rótulo é para que se consuma o produto o mais rápido possível: como uma coca-cola e um hambúrguer, que devem ser instantaneamente ingeridos, a fim de que o o refrigerante não perca o gás e a comida o seu efeito plástico.  

Os elementos fabulares — que também estão presentes nos demais filmes de Wong e anunciam a passagem da vida ordinária para a fábula, ou a ficção –ganham na segunda parte um reforço, a saber, uma canção (recurso, aliás, recorrentemente usado por Wong como forma de suavizar os ásperos temas que o diretor enfrenta): a personagem, que trabalha em uma lanchonete, guarda dinheiro para um dia conhecer a Califórnia, em um jogo cênico sutilmente emoldurado por California Dreamin’, sucesso de 1965 da banda The Mamas And The Papas. O conflito entre a cultura oriental chinesa e a cultura ocidental inglesa/norte-americana contrasta com a vida dura da personagem e o sonho de consumo estampado na letra da música. Quando não está imersa em seus devaneios, a moça cria pequenas situações para que o policial que ela atende diariamente no balcão da lanchonete a perceba, em uma trama que antecipa  O fabuloso destino de Amélie Poulain (2001), de Jeunet.

Amores Expressos apresenta duas fábulas cujo ponto de contato é o boteco, a lanchonete — o local de encontros, do acaso. Personagens — como no caso dos policiais que surgem na trama — são reconhecidos por seus respectivos números ou pelas indigestões amorosas que os acometem entre um amor ligeiro e outro. O filme cria metáforas de uma vida acelerada. Não por acaso, os encontros ocorrem nos lugares em que o consumo dita o modo de cada um se expressar. 

Há cenas trabalhadas com o propósito de fazer aumentar a sensação de solidão: Wong põe no centro da tela personagens praticamente congelados a remoer as suas dores, enquanto as imagens ao redor são aceleradas. Isso cria a impressão de que as outras pessoas não têm rosto, não têm corpo. Não nos relacionamos com elas a não ser em uma topada ocasional.

No Brasil, Amores Expressos serviu de inspiração para um projeto de mesmo título, apresentado à imprensa em 2007: escritores foram convidados a passar um tempo em algumas cidades do mundo para escrever sobre a solidão amorosa. Seus livros foram publicados pela Companhia das Letras.

Nos dias de hoje, a solidão de Amores Expressos revela-se nos aplicativos de namoro (o sexo deve ser consumido com base na embalagem); uma solidão que não cessa diante daquilo que foi fabricado para que cada um se sinta, na pior das hipóteses, só. 

Para fechar (com um pensamento desajustado), sempre disse para mim mesmo que não saberia dormir com alguém com quem não me imagino tomando café da manhã no dia seguinte. A lógica de Amores Expressos, em sua antecipação estética dos aplicativos de relacionamentos, parece manifestar o oposto desse meu pensamento: um Uber para voltar para casa, um lanche no IFood, uma canção romântica no Spotify e um tender no Tinder:  qual o sabor de hoje? Carne, frango, peixe ou vegetais? I love Cup Noodles.

Demétrio Panarotto é doutor em Literatura e professor de roteiro no curso de Cinema da UNISUL. Publicou, dentre outros, Ares-Condicionados (2015, contos), Arquipélago (2018, infantil) e Privado (2021, contos).

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