Como o pesadelo americano se torna real

9-11-01, New York City, Andrea Arroyo. Library of Congress

Por Timothy Snyder

Há pouco, despertei de um pesadelo sobre o 11 de setembro.

Eu visitava o Empire State Building, em Nova York, quando um avião o atingiu pelo flanco. O edifício todo estremeceu por um instante, mas, em seguida, nada mais aconteceu. Eu estava sozinho, sem meus amigos ou minha família, e comecei a correr em direção à saída, escadaria por escadaria. Fugir dali era a coisa certa a fazer. Só que ninguém mais concordava comigo.

Creio que essa sensação de inércia durante uma emergência seja algo que tenha permanecido comigo desde o 11 de setembro real, quando o World Trade Center foi atacado. Depois que o primeiro edifício foi atingido, ninguém pareceu se dar conta de que a segunda torre deveria ser evacuada.

Em meu sonho sobre o Empire State Building, não havia sirenes. Quando cheguei ao saguão no térreo, as pessoas simplesmente andavam a esmo, e todas as portas estavam fechadas e trancadas. Não parecia haver saída. Um portão para deficientes foi momentaneamente aberto, a fim de que uma mulher em uma cadeira de rodas pudesse entrar. No sonho, eu me senti um pouco culpado por me esgueirar por esse portão para poder escapar. O portão se fechou novamente. Ninguém mais saiu do prédio. Meu exemplo não fez diferença. Todos ali iam morrer.

De algum modo, acabei em um prédio vizinho, uma espécie de centro turístico onde as pessoas aguardavam antes de poder entrar no Empire State Building. Lá dentro estava um grupo de idosos que esperava a sua vez. Tentei explicar-lhes o que estava acontecendo. Se não havia quem quisesse deixar o edifício, que ao menos ninguém mais nele entrasse.

Mas eu era só mais um na multidão. Não usava uniforme, não tinha um megafone, e ninguém prestava atenção em mim. Os turistas me lançavam aquele olhar que se dirige às pessoas quando elas são a atração mas a atração não agrada. Eles não haviam visto o avião atingir o prédio, e achavam que eu era um maluco qualquer. Uma senhora à minha esquerda – que usava um vestido e um enfeite de cabelo com as cores da bandeira americana – começou a rir de mim. Eles estavam prontos a fazer o seu tour.

No sonho, eu sabia que o prédio ia desabar, e não parecia haver nada que eu pudesse fazer. O problema estava claro como o dia, mas ninguém queria vê-lo. As pessoas preferiam arriscar tudo a acreditar que corriam risco. Junto ao grupo de idosos, estavam dois seguranças. Eles haviam visto o avião bater no edifício; ainda assim, não conseguiam tirar conclusões desse fato. Queriam conversar comigo sobre o que poderia ter acontecido. Não foi apenas um acidente? Não havia alguém no comando? Tudo ficaria bem, não é mesmo?

Os sonhos de vocês são tão fáceis de analisar quanto os meus? Às vezes, na vida real, eu me vejo na posição de Cassandra, como em meu sonho. Foi assim quando previ que a Rússia invadiria a Ucrânia em 2014; quando revelei as conexões de Trump com a Rússia, em 2016; quando recomendei às pessoas que lutassem contra a mudança de regime nos EUA em 2017; quando vaticinei em 2020 que Trump tentaria dar algum tipo de golpe para permanecer no poder; ou quando tentei explicar que uma grande mentira seria seu legado.

O gatilho evidente de meu sonho sobre o Empire State Building foi a votação do Senado que impediu que se investigasse a insurgência doméstica de 6 de janeiro de 2021. A proposta de investigação foi formulada com base na Comissão do 11 de setembro, e é por isso que o ataque às Torres Gêmeas estava em minha mente. O 11 de setembro é inesquecível; quase três mil americanos perderam a vida. Os ataques terroristas naquele dia levantaram questões sobre política externa e segurança aeroportuária. Já o ataque terrorista ao Capitólio, em 6 de janeiro deste ano, levantou questões mais profundas sobre como nosso país é governado e em que nos transformamos como povo.

Em 2001, falando na Câmara dos Representantes, o presidente Bush disse que a Al Qaeda odiava “o que vê aqui neste local: um governo eleito democraticamente”. Isso é o que na época queríamos ouvir, porque significava que tínhamos sido atacados porque éramos os mocinhos. Provavelmente não era isso que a Al Qaeda pensava em 11 de setembro – mas era o que certos americanos tinham em mente em 6 de janeiro. Eles invadiram o mesmíssimo salão em que o presidente Bush falara e estavam ali para interromper os trâmites de nossa democracia. Atacavam, precisamente, “um governo eleito democraticamente”.

O cenário que se forma é o seguinte: os republicanos reconquistam a Câmara e o Senado em 2022, em parte graças à supressão dos eleitores. O candidato republicano em 2024 é derrotado por larga margem no voto popular e por uma pequena diferença no Colégio Eleitoral. As assembleias legislativas estaduais, alegando fraude, alteram a forma de contagem dos votos. A Câmara e o Senado aceitam essa contagem alterada. O candidato derrotado se torna o presidente. Não temos mais “governo eleito democraticamente”. E as pessoas estão com raiva.

Ninguém está tentando esconder que esse é o plano. Tudo está bem à vista. Os pré-candidatos republicanos para 2024 – Donald Trump, Ted Cruz e Josh Hawley – estão todos concorrendo com base em uma grande plataforma de mentiras. Quando se afirma que as eleições não funcionam, o que se está dizendo é que se pretende chegar ao poder por outros meios. A grande mentira não visa ganhar a eleição, mas desacreditá-la. Qualquer candidato que ratifique essa grande mentira está alienando a maioria dos americanos e preparando uma minoria para um cenário em que se alega fraude. Isso é exatamente o que Trump tentou em 2020 e é também o que o levou a uma tentativa de golpe em janeiro de 2021. Será pior em janeiro de 2025.

O 11 de setembro nos conduziu à invasão do Iraque, o desastre de política externa que marcou nosso século. O 6 de janeiro nos leva a uma catástrofe de escala semelhante, só que dentro do nosso próprio país. Não está nada claro se o plano para assumir o poder de forma não democrática funcionará, mas é evidente que vai gerar muita resistência. Os afro-americanos estão ouvindo a mentira absurda de que o problema na América consiste em que é muito fácil para eles votar. À medida que o cenário se desenrola, todos os americanos se veem diante de uma negação cada vez mais aberta de tudo o que ouviram sobre seu país.

Em tal cenário, não se sabe ao certo o que as Forças Armadas ou os funcionários públicos fariam. O mais provável é que essas corporações acabem divididas por um racha. O juramento de defender a Constituição é difícil de honrar quando não está claro o que ele significa. Tanto aqueles que estão roubando uma eleição quanto aqueles que defendem os votos dados argumentariam que estão do lado da Constituição.

A Suprema Corte decidiria, mas quem prestaria atenção? Os que tomaram a iniciativa derrubar a democracia acreditam que a Corte os apoia; por isso, procedem como tal. Se em janeiro de 2025 se declarar que eles estavam errados, será tarde demais; eles não mudariam de curso. Aqueles que defendem o direito de voto esperam que o Tribunal se pronuncie contra o voto, uma vez que é isso o que geralmente faz. Se a Corte decidir contra o voto em um cenário de mudança para um regime antidemocrático, isso parecerá gritantemente ilegítimo para um grande número de americanos. Sem Tribunal, sem Constituição. Sem Constituição, sem Estado de Direito. Sem Estado de Direito, violência generalizada. Segue-se a isso o colapso dos Estados Unidos.

Quando Trump contou sua grande mentira, o avião atingiu o prédio. O que se desencadeia a partir daí segue uma certa lógica. Esse processo pode ser interrompido, mas apenas se for compreendido. Tudo acontece rápido. É tão fácil desviar o olhar, imaginar que foi tudo um acidente, pensar que as instituições vão nos salvar. Ora, elas só vão nos salvar se as salvarmos primeiro.

As leis anti-eleitorais propostas e aprovadas pelas assembleias legislativas estaduais republicanas em todo o país movem o cenário em direção ao próximo passo. Deter a aprovação dessas leis pode muito bem ser a única maneira de interromper a evolução do cenário como um todo. As empresas que desejam evitar o caos no curto prazo e o colapso do sistema em 2024 fariam bem se não fizesssem doações a políticos que repetem a grande mentira e suprimem a votação.

Temos que agir agora. Isso é o que ninguém quer ouvir. Queremos acreditar na democracia americana. Queremos ter orgulho de novas leis, uma economia em crescimento, o fim da cobiça. Eu entendo tudo isso. Eu também quero me sentir assim. Ainda não descobri como contar esta história. Na vigília, me sinto como no sonho, diante daquele grupo de idosos. Não consegui convencer nenhum deles. Tudo o que fiz foi ficar parado na porta e continuar falando. Até acordar no meio da noite e escrever isto.

Tradução de Fábio Lopes da Silva

Timothy Snyder é professor na Universidade de Yale (EUA). É autor de Na Contramão da Liberdade (Cia. das Letras, 2019) e Sobre a Tirania (Cia. das Letras, 2018), entre outros livros. E-mail: snyder.assistant@yale.edu

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