Da esquerda cirandeira ao tio do zap: a antivacina está por toda parte

Manifestacão em Londres em 2020. Arquivo do The Guardian

Por Helder Maldonado

Paranóia, misticismo e pessimismo sociocultural são fatores que muito contribuem para o pensamento negacionista e antivacinas. Mas a síndrome persecutória, a conspiração e o sentimento de lutar inconsequentemente pela própria individualidade e contra as interferências governamentais e empresarias na vida familiar são as motivações que mais têm levado as pessoas a recusar tratamentos medicinais cientificamente reconhecidos. E isso não é de hoje.

Historicamente, esse é um assunto que faz a esquerda e a direita convergirem em determinadas épocas. Embora seja a extrema-direita quem tenha sequestrado o tema com mais força desde a ascensão de Donald Trump nos Estados Unidos (com uma ajudinha do QAnon), a recusa às vacinas precede o ex-presidente americano e é quase tão velha quanto os primeiros imunizantes feitos no mundo, em 1796.

Inicialmente, a rejeiçao às vacinas ficava mais restrita a pessoas com fortes ligações com a religião. Fundamentalistas, principalmente cristãos, formaram o primeiro grupo anti-vax, quando decidiram não tomar a injeção contra a varíola. Para tanto, valeram-de de um recurso muito visto 220 anos depois, durante a CPI da Covid: substituir o embasamento científico pela evidência anedótica, quer dizer, pela prática de citar casos isolados, em geral relacionados a pessoas próximas. Esse é um tipo de argumento muito bom para a mesa de bar, mas arriscado para quem não pretende ficar cego ou com o rosto com marcas ao estilo das do deputado Eduardo Girão.

A resistência às vacinas ganhou um novo fôlego a partir de 1998, quando o gastroenterologista britânico Andrew Wakefield publicou um artigo na revista Lancet em que relacionava os imunizantes contra sarampo, rubeóla e caxumba ao desenvolvimento de autismo em crianças. O estudo, à época, causou escândalo e ganhou adeptos. Assim como a pesquisa recente de Didier Raoult a respeito da cloroquina, a de Wakefield não demorou a dar lugar a retratações e refutações, transformando-se até mesmo em um case de má conduta científica nas universidades. Isso, contudo, não inibe as pessoas quando elas querem reforçar uma crença que só precisa de chancela oficial, ou coisa parecida, para ser propagada nos grupos de zap ou, como acontecia no passado, nos fóruns da America On Line e no ICQ. Até porque a refutação de artigos muitas vezes acaba gerando um efeito inverso, que alimenta ainda mais o ceticismo: “Olha só, tá vendo? A Big Pharma não deixou o Wakefield revelar a tramoia da vacinação, e ele agora é perseguido pela indústria dos medicamentos.” Acrescente-se a isso o fato de que, no caso de Wakefield, o pesquisador ainda perdeu o direito de atuar na área doze anos depois da publicação do trabalho. Pronto: ele já estava apto a, em 2016, subir no palanque da campanha de Donald Trump como um perseguido pelo sistema. Afinal, nada atrai mais médico picareta do que político de extrema-direita.

Cabe observar, contudo, que, quando o artigo saiu na Lancet, o tipo de gente que passou a aderir ao movimento antivacina era relativamente diferente dos atuais apoiadores mais ferrenhos da causa. Àquela altura, pessoas que se identificavam como esquerdistas e cultivavam estilos de vida alternativos desconfiavam mais das campanhas de vacinação do que os direitistas. Nos Estados Unidos, os que mais se induspunham contra os imunizantes eram membros daquelas tribos que vivem tão intensamente suas crenças que chegam a formar comunidades que só se alimentam de produtos orgânicos, são veganas e se opõem medicamentos alopáticos. No Brasil, esses grupos correspondem ao que se costuma chamar de hippies tardios ou esquerda gratiluz.

As cidades de Marin County, na Califórnia, e Boulder, no Colorado, abrigaram esse tipo de comunidade e lideraram movimentos antivacina nos Estados Unidos. O fato, em todo caso, é que essa versão americana da esquerda gratiluz acabou gerando novos surtos de doenças, principalmente a partir das escolas Waldorf, as suas preferidas. Estudo realizado pela epidemiologista da Universidade Johns Hopkins Rupali Limaye revelou nessas instituições de ensino um número de casos de coqueluche e varicela muito acima da média. Desnecessário dizer que, nessas mesmas escolas Waldorf, os índices de vacinação ficavam bem abaixo da média nacional.

Luz e verdade. Brasão da Yale University, EUA. Foto: Fábio Lopes da Silva

Nos últimos anos, a Dra. Rupal Limaye observou uma guinada para a direita em seus resultados: as comunidades anti-vax são agora virtuais (a maioria delas está no Facebook) e assumiram um tom um tanto diferente.

Se antes a preocupação era com os aditivos supostamente prejudiciais acrescentados às vacinas, as pessoas agora reclamam da intromissão exagerada dos governos em suas escolhas pessoais. Elas descrevem as regras de imunização nas escolas como um ataque à liberdade e, nas redes sociais, compartilham teorias sobre como Bill Gates estaria trabalhando com o governo para controlar os cidadãos por meio de microchips introduzidos junto com os imunizantes. Além disso, protestam contra as empresas farmacêuticas, que tentariam estender seus tentáculos sobre a população. Triste constatação: mais uma vez, estamos importando o pior do delírio norte-americano. Por sorte, a penetração desse discurso no Brasil ainda é fraca — ainda que já tenha deixado algumas marcas.

Os atuais grupos anti-vax são engrossados por seitas religiosas que se opõem à vacinação por razões doutrinárias, como é o caso de algumas pequenas igrejas que veem as vacinas como uma interferência arrogante dos seres humanos nos planos de Deus.

Nos Estados Unidos, a rejeição às vacinas conta também com adeptos de Rudolf Steiner, que propôs o que ele chamou de medicina antroposófica, cuja visão parte do pressuposto de que febre alta é a chave para o crescimento espiritual das crianças. O clube antivacinas inclui ainda pessoas como o ex-dentista Len Horowitz, que sugeriu que o Ebola e o HIV foram criados em laboratórios financiados pela CIA, ou o falecido Harris Coulter, cujos livros relacionavam a vacina contra coqueluche a tudo, de cegueira até assassinos seriais e predileção por rock pesado. E eu achando que headbanger brasileiro era tudo fruto de falta de vacinação...

Mas quem dera o movimento antivacina nos Estados Unidos estivesse restrito apenas a enclaves de hippies tardios, fãs da extrema-direita conspiratória e charlatães da área da saúde. Artistas de Hollywood também acabam tendo forte influência sobre o movimento, o que felizmente ainda não encontra paralelo no Projac (por enquanto, só a irrelevante Elisângela, que todo mundo acha que é filha do Zacarias, comparou a injeção ao estupro). Entre as estrelas americanas, uma das mais proeminentes vozes contra a vacinação é Jim Carrey, que em suas horas vagas já até desenhou Donald Trump pendurado pelo pescoço em um poste, o que gerou a ira de Alessandra Mussolini, neta do ditador italiano Benito Mussolini (o Duce, como se sabe, morreu dessa forma, após linchamento público). Quer dizer, Carrey pode ser acusado de tudo, menos de ser fã de ultradireitistas. Isso, contudo, não o impediu de, em 2009, escrever no Huffington Post que as vacinas não foram realmente estudadas quanto à segurança.

Claro que foram. Mas a a verdade para Carrey é alternativa: “Ninguém sem um grande interesse na lucratividade das vacinas estudou todas em profundidade”, anotou ele.

Outra estrela que segue trilha semelhante é Alicia Silverstone. Adepta do veganismo e filosofias do bem-estar, a musa dos clipes do Aerosmith acredita que vacinas em grávidas geram autismo em fetos. Ela também escreveu um livro para pais, The Kind Mama, que não só é antivacinas como também antifraldas.

A cientologia também tem influenciado os artistas em suas posições. Kirstie Alley, que, desde que estrelou Olha Quem Está Falando, em 1990, só é lembrada por aparecer na TV para mostrar o efeito sanfona no próprio corpo, é adepta da escolha dos pais sobre vacinação. Danny Masterson, conhecido por That 70s Show, The Ranch e por assediar atrizes em todos os camarins em que pisa, idem. Assim como Juliette Lewis. Já Charlie Sheen não é necessariamente contra vacina e também não deve estar sóbrio desde 1980 para opinar sobre seja lá o que for — mas há alguns anos ficou realmente enfurecido quando a ex, Denise Richards, ganhou uma batalha para vacinar as filhas, o que levou o ator a pagar a pediatra das crianças usando apenas moedas de cinco centavos.

No Brasil e nos Estados, a questão da vacinação virou uma fanfarronice partidária, mística e religiosa. Claro que existe uma diferença enorme entre, por um lado, não acreditar em vacina e, por outro, achar que o governo não deveria se intrometer nesse assunto, o que é uma postura típica do libertarianismo tão propagado entre os americanos individualistas, que argumentam que ser cético não é ser contra determinadas teses. A questão é: para onde vai essa aliança recém-formada entre a ultradireita e certo tipo de esquerda a partir daqui? Alguns analistas acreditam que a vida útil desse amplo movimento antivacina será limitada, com a extrema-direita voltando-se para alguma outra questão, como a imigração, por exemplo. Ora, é de fato normal que as pautas mudem muito rapidamente para esse público, mas não podemos ignorar o estrago que já foi feito.

Esses surtos psicóticos, quase tão problemáticos quanto os virais e bacteriológicos, tendem a desaparecer em função de novos arranjos políticos, muito embora os grupos de pais e mães prontos propagar e praticar ideias sem muita base científica, à esquerda e à direita, bom, isso seja uma tradição da humanidade que foi dinamizada com o advento das redes sociais e não vai passar tão cedo.

Helder Maldonado é jornalista especializado em música e cultura pop, com passagens pelo portal IG, revista Sucesso!, Editora Escala, Terra e portal R7. Com o também jornalista Marco Bezzi, é o criador do canal no Youtube Galãs Feios, atualmente com 525 mil inscritos.

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