Desvendador: a obra de Jandyra Waters

Jandyra Waters. Sem título, 1976

Por Antonio Carlos Suster Abdalla

Por ser Jandyra Waters artista de forte personalidade e dona de extensa produção, suas obras são facilmente identificáveis. Ao longo dos muitos anos de atividade, ela conquistou o reconhecimento da crítica, de colecionadores e de admiradores, estando hoje presente em importantes acervos de museus. O que mais se conhece de seu trabalho, dentre as diversas fases que o integram, são as geometrias rígidas, simétricas, com formas de equilibrada composição, quase sempre tingidas de cores intensas, vibrantes. Hoje, aos 100 anos recém completados, Jandyra está plenamente ativa. Continua atenta a tudo, com ideias originais para novas realizações — e incansavelmente alimentada por sua inteligência privilegiada. A impossibilidade atual de pintar obras de maiores dimensões advém de limitações físicas que a impedem de ficar diante de um cavalete, como seria sua vontade.

Jandyra Waters. Sem título, 1978

Tendo-se iniciado na figuração, a artista enveredou por um abstracionismo muito em voga nos anos 1960, época em que privilegiava uma observação macroscópica e minuciosa da natureza e seus fenômenos, com destaque para as novas tendências da arte de então, como o movimento conhecido como tachismo. É o período da exploração de uma subtendência pouco habitual na arte abstrata: ousada, passível de ser nomeada de abstracionismo orgânico.

Jandyra Waters. Sem título, 1978

É importante lembrar que, na origem da abstração do século 20, vários movimentos, ou escolas, fizeram-se presentes. Entre os mais representativos, temos a abstração geométrica (na qual um objeto real passava por um processo quase cartesiano de geometrização, e as cores eram habitualmente obtidas após inúmeras veladuras); a abstração informal ou lírica (livre da geometria e consagrada, por exemplo, na pintura oriental); e o concretismo – especialmente presente e valorizado no Brasil (com motivos sequenciais e recurso a cores puras). Somados a uma série de variantes de maior ou menor destaque, tais movimentos formam o percurso correto até essa abstração orgânica (ou biomórfica) encarnada em muitas obras de Jandyra, nas quais surpreendemos representações semelhantes às “formas-disformes” da natureza. É uma arte que se utiliza de figuras curvas, com volumes abundantes, arredondados, assimétricos, suavizados em sua geometria, praticamente destituídos de linhas retas e ângulos abruptos. A abstração orgânica privilegia também a matéria, que propositalmente apresenta texturas capazes de quase levar o observador a tocar a tela.

Jandyra Waters. Sem título, 1976

Ainda nos anos 1960-1970, a artista expande os limites desse organicismo, agiganta suas telas e recria imagens interligadas. Essas imagens ganham contornos geométricos, mas ainda não rígidos. Suas obras geram impacto, seja pela originalidade, seja pelas dimensões. Àquela altura e no contexto da arte então proposta, Jandyra Waters era uma vanguardista, na excelente companhia de alguns grandes nomes internacionais, entre os quais vale destacar Joan Miró, Jean Arp, Isamu Nuguchi, Barbara Hepworth, Constantin Brancusi e Henry Moore. É o período em que participa das Bienais de São Paulo e se aproxima do crítico e colecionador Theon Spanudis, que desde então passa a ser seu grande e constante amigo, como ambos reconhecem. Jandyra e outros tantos artistas se integram ao círculo de parceiros e admiradores que se formou em torno desse justa e oportunamente revisitado homem de cultura, de grande importância e ainda não completamente dimensionado, fundamental para a consolidação do percurso histórico e atual da arte brasileira. As perspectivas geométricas criadas pela artista consolidam-se e ganham uma tridimensionalidade discreta nos relevos, para depois se transformarem por completo em esculturas, com recortes encapsulados em caixas e em “templos” – verdadeiras construções arquitetônicas, racionais e factíveis. A radicalização da geometria chega ao auge, e as obras bidimensionais ganham uma exigência de perfeição e rigidez, consagrando Jandyra como uma paleta de cores fortes, técnica perfeita, impactante e de forte caráter pessoal.

Jandyra Waters. Sem título, 1978

Jandyra Waters é, também, escritora bissexta, com três livros de poemas publicados. Desses, chama a atenção Desvendador, cujo título este ensaio toma emprestado. A palavra ‘desvendador’ expressa bem nossa intenção, pois desvendar é tornar claro e compreensível o objeto observado, neste caso sem que isso signifique limitação, pois não é possível acomodar-se em reconhecer e compreender objetivamente todo o conteúdo de criadores complexos, de riqueza interior e realização plena, como Jandyra Waters, artista interessantíssima, cada vez mais reconhecida por todos que admiram sua obra.

Jandyra Waters. Sem título, 1976

Antonio Carlos Suster Abdalla é curador independente e pesquisador em Artes Visuais, além de especialista em Museologia. Tem mais de 140 trabalhos concluídos em museus, galerias e centros culturais.

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